Foi Deus Quem Mandou (Larry Cohen, 1976)

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God Told Me To, Larry Cohen, 1976 ****¹/²

Thriller policial fantasioso e com toques de horror e (lá pela tantas) até blackexploitation, reimaginando Jesus Cristo renascido nas ruas imundas de Nova York da época como o mentor de uma série de mortes, e um detetive incrédulo seguindo em seu encalço. Do contraste entre o filme policial urbano e realista típico do período setentista, com o terror sobrenatural e apocalíptico, God Told Me To constrói seu fascínio, que se acentua com o sustento de uma intensidade e atmosfera desde os minutos iniciais, além de algumas das sequências mais delirantes do cinema da Nova Hollywood. Há certas referências cinéfilas: a cena de abertura com o primeiro atentado que remete a Targets, primeira obra-prima de Peter Bogdanovich, ou a garota nua correndo a noite clamando por carona na estrada, que parece tirada de outro thriller paranoico e catastrófico de vinte anos antes, Kiss me Deadly. Dos melhores filmes americanos do seu tempo.

Amanhecer Violento (John Millius, 1984)

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Red Dawl, John Millius, 1984 ****

Um dos objetos cinematográficos mais estranhos saído de Hollywood nos anos 80. Como uma daquelas parábolas de ameaça comunista em forma de invasão alienígena de décadas antes, porém despida de qualquer alegoria ao imaginar uma hipotética III Guerra Mundial em sua época. Aproximando-se por vezes de um tom de paródia, especialmente em relação aos soldados comunistas apresentados como caricaturas (alguns momentos lembram sci-fic posteriores bem sarcásticas, como Mars Attacks! e Starship Troopers − ainda que Red Dawn seja ideologicamente mais claro e assumido que o filme de Verhoeven), e com uma inversão intrigante na troca dos papéis (normalmente são os americanos os invasores de terras estrangeiras). Um daqueles filmes que pode provocar um desprezo numa certa idade, e fascínio anos depois. Possui também um quê de western com homens a cavalos e com armas na mão dispostos a morrer para defender seu espaço e sua própria tentativa de paz. E com uma pegada fulleriana como talvez nenhum outro filme realizado desde então.

Caçada Sangrenta (Ozualdo Candeias, 1974)

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Caçada Sangrenta, Ozualdo Candeias, 1974 ***¹/²

Um tanto menor comparado ao que Candeias havia feito até então, mas ainda dentro de seus padrões cinematográficos, com um veículo para o galã David Cardoso em forma de fita policial e de caçada, servindo como pretexto para uma percepção da matéria viva do cinema, um outro exercício de gênero por parte do diretor (aqui com mais ação física) que se manifesta por vezes de forma relativamente onírica, mítica e errante, cheio de personagens silênciosos, e com um uso imaginativo das locações, de acordo com um deslocamento espacial, um cinema de percurso, típicos em Candeias, além de um documento de uma parte do interior do país em sua região Central e figuras humanas a margem da sociedade, garimpeiros, ribeirinhos, garotas da periferia, motoqueiros. E com direito a uma bela perseguição de carros encenada numa estrada de terra.

Les Godelureaux (Claude Chabrol, 1961)

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Les Godelureaux, Claude Chabrol, 1961 ****¹/²

O filme mais livre que vi de Chabrol, com uma pureza na forma, bem Nouvelle Vague e mais discretamente ousado que os títulos rodados por seus pares e colegas franceses nesse primeiro período de movimento. Um sentido trágico da existência mesclado a uma leveza inerente a vida. A nouvelle vague bebeu muito dos filmes B americanos (notadamente os noirs), menos como uma série de procedimentos estéticos e mais numa questão de temperamento e estilo, incorporando as falsas escassez de recursos, trocando a atmosfera noturna pela transgressão à luz do dia, e lidando com figuras comuns ao invés de personagens que parecem existir unicamente no universo fantasioso (e fascinante) do noir. Les Godelureaux é também a melhor resposta feita quarenta anos antes a The Dreamers, é o que o filme juvenil do Bertolucci seria se fosse bom, dentre outras coisas por mostrar o que pode acontecer quando dois homens dividem a atenção de uma mesma jovem. Não a toa Godard era apaixonado por Les Godelureaux e Rohmer chegou a invocar Cassavetes para elogiá-lo. Brilhante utilização da música.

Morte Sem Glória (Robert Aldrich, 1956)

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Attack, Robert Aldrich, 1956 ****

Os filmes de guerra de Aldrich mereciam ser agrupados e receberem estudos mais amplos (como já vem ocorrendo com alguma frequência com os que Samuel Fuller fez dentro do gênero). Estar na guerra em um de seus filmes equivale aos personagens experienciar na pele e colocar-se frente a peregrinações suicidas, uma corrida contra os ponteiros do relógio, com situações insanas em que o único heroísmo é a luta por sobreviver. O que resulta dentro da sua filmografia em algumas das cenas mais tensas do cinema americano, como o clímax de Too Late the Hero, ou Jack Palance em Attack lutando sozinho contra um tanque de guerra, e todo o seu solo de interpretação a seguir, formidável momento do ator (Palance talvez seja o ator que melhor completa Aldrich, por esse e outros trabalhos que realizou com o cineasta).

No Assombroso Mundo da Lua (Robert Altman, 1968)

Countdown, Robert Altman, 1968 ***

Curioso porém envelhecido exemplar da corrida espacial em plena Guerra fria nos primórdios da Nova Hollywood, quase um novo debut de Robert Altman no cinema depois de anos trabalhando na TV (seu único filme anterior fora rodado uma década antes), com foguetes, chegada a Lua, americanos e russos… Altman não chega a sabotar o gênero de ficção como faria com outros em trabalhos posteriores, a chave aqui parece ser transgredir alguns elementos de suposto escapismo das fantasias sobre o espaço feitas até então, imprimindo uma aparência maior de realismo (e enfatizando os problemas domésticos dos astronautas), mas sem a mesma invenção e imaginação de muitos sci-fic que lhe precederam. Díficil não comparar com o 2001 de Kubrick lançado no mesmo ano, que faz incomparavelmente melhor essa ponte para a modernidade, como transição do ‘velho’ para o novo, acrescentando à todos os elementos o de poesia. Perto de 2001, que parece eternamente suspenso no tempo e ligado a um futuro sempre indeterminado, Countdown se afigura irremediavelmente datado e preso a 1967. A sequência final é muito boa.

Uma das maneiras apropriadas para se falar de David Lynch é compará-lo com grandes e veros cineastas. Eraserhead como primeiro obra (ignorando seus curtas anteriores) sempre me pareceu uma extensão de O Cão Andaluz (ainda que só a cena do corte no olho valha mais que Eraserhead inteiro), no que ele tem de experimental, surrealista, esquisito. Até ai tudo bem, no entanto faltou a Lynch dar o mesmo passo que Buñuel e fazer logo em seguida A Idade de Ouro e Las Hurdes, filmes em que cada um a seu modo, e respectivamente com humor e horror, tratam do sentido trágico da existência, levando o diretor a ser expulso primeiro da França, e depois da Espanha natal, permanecendo quinze anos sem filmar. O que fez David Lynch? Integrou-se como o “esquisito” dentro do “sistema”, preferiu virar cult, ao invés de maldito (coisa que, ousado e transgressor como sempre se pretendeu, nunca chegou perto de se tornar), resultando em filmes que, mesmo agradáveis e com lampejos de excelência, não fizeram dele um mestre como Buñuel. Caso de filmes que se não existissem não fariam falta alguma. Livro a cara do genial A Estrada Perdida, que pode ser visto como uma releitura de Filme Demência (parece que o próprio Reichenbach chegou a escrever que acreditava que Lynch conhecia o seu filme), embora toda a crítica tenha se levado pela influência da outra alegoria da morte/demônio vindo a terra para levar um de seus filhos que é O Sétimo Selo, inclusive é bastante enriquecedor e digno de nota rever o filme de Lynch sob a perspectiva dessas duas referências cinematográficas (façam ao menos uma sessão dupla com os road movies que são A Estrada Perdida e Filme Demência). Ok, História Real também é foda, com as esquisites de Lynch inseridas num plano mais concreto e verdadeiro quase fordiano, sem apelar aos abstracionismos ou afetações que lhe é particular, enquanto que Cidade dos Sonhos vale quando muito por uma punheta que possa proporcionar, e Império dos Sonhos seja o filme mais errado e equivocado da história do cinema (o tipo esquizóide que poderia dar num A Idade da Terra caso Lynch fosse Glauber Rocha).