Uma das coisas mais chatas em discutir cinema brasileiro contemporâneo é quando o outro lado lhe acusa de maneira quase inquisidora de não ter visto os filmes nacionais dos debates em voga.

Daí você enumera uma penca deles, dos que parou para assistir, e lhe vem na lembrança o tempo desperdiçado em vão, o pouco acréscimo que lhe trouxeram em termos de contribuição estética, na absoluta incapacidade de superarem as suas más vontades antes de conhecê-los (bons filmes possuem o atributo de resistir e vencer a desconfiança alheia).

Ou mesmo em um momento de eventual boa vontade dos olhos de quem vê ainda assim se confirmarem como a completa ou seminulidade que representam. Uma das razões pelas quais parei, ao menos momentaneamente, com os textos sobre cinema, é preciso uma resistência inquebrantável para lidar com objetos fílmicos que não lhe dizem muito, e aos quais você não pretende ficar buscando o que possa discorrer de bom a partir deles.

American Sniper (Clint Eastwood, 2014)

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American Sniper, Clint Eastwood, 2014 °°°°

Não sei se alguém já levantou a comparação, mas os comentários sobre o PM que assassinou o garotinho de 10 anos me fizeram pensar na polêmica sequência em que a criança é alvejada e morta em American Sniper e mais duas ou três coisas sobre o filme que só fui coincidentemente ver outro dia, e também sobre a nossa violência urbana. Ok, em Sniper eles estão em guerra, mas quem garante que há muito não transcorre por aqui uma guerra velada nas ruas, da força policial contra os mais pobres, com muitos destes sendo cada vez mais empurrados para a periferia ou massacrados de vez? A questão, não esquecendo o quanto lamentável e injustificável foi o episódio ocorrido no Brasil nessa semana, ilumina um filme tão mal compreendido quanto o do Clint. Lá, na ficção hollywoodiana, como aqui na realidade das ruas brasileiras, o extermínio é odioso, mas o filme definitivamente não faz uma apologia ou defesa do conflito nem coloca os muçulmanos como animais ou merecedores da morte, nem mesmo na cena supracitada. Se há um absurdo é o absurdo da guerra injusta que lá e a aqui os donos do poder nem sempre fazem o suficiente para deter, mas como tampouco o filme apresenta esse viés num discurso dentre o esperado pelo espectador cada um enxerga nele o que quer, o que inclui odiá-lo como um produto americanista ou belicista que ele não se propõe a ser. Há também o protagonista meio máquina de guerra, quase desumanizado, não uma caricatura como as que identificamos facilmente nos filmes voluntariamente mais torpes, mas vivendo em um mundo próximo das ações e batalhas de um game e mais distante da família do que gostaria (o que remete um pouco também a Matt Damon e sua frustração pela impossibilidade de aproximação afetiva em outro negligenciado trabalho do diretor, Hereafter – o que é um do temas principais de toda carreira do Clint). Caprichasse mais na dramaturgia e Sniper seria obra-prima, e não apenas um grande filme, mas eis um artista que costumeiramente se recusa a ser óbvio.

Debi e Loide 2 (Bobby & Peter Farrelly, 2014)

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Dumb and Dumber To, Bobby & Peter Farrelly, 2014 ***

Preparando um comentário curto para a minha lista de melhores de 2014 este tomou um tamanho maior do que esperava e o guardei para um post a parte. O cinema dos irmãos diretores precisa de grandes atores (cuja falta prejudicava os irregulares últimos trabalhos), esse retorno as suas origens não apenas recupera uma das grandes duplas cômicas da história como também um bocado da mescla de estupidez com sensibilidade que vinha fazendo falta nessa fase recente, marcada pelas dúvidas se os realizadores viviam em crise ou em declínio. Ainda que as piadas tolas existam em alguma quantidade conta com outras antológicas, como o coma fingido do personagem de Carrey (lembra um dos filmes de Laurel e Hardy em que o primeiro apenas para obedecer ordens permanece vinte anos numa sentinela mesmo a Primeira Guerra há muito ter acabado) ou os dois numa longa volta retornando para bater no endereço do remetente ao invés de se dirigirem ao destinatário de uma carta. Menos inspirado que o primeiro, mas bom o suficiente para nos despertar o desejo de que os personagens virassem franquia regular, e não somente deixar a expectativa de um terceiro daqui vinte anos.

2014

Um balanço mais do meu ano cinéfilo em relação ao circuito de estreias nos cinemas brasileiros do que propriamente um top. Mais uma lista de autores que de filmes. Preferindo dentre os filmes que vejo as revisões incessantes e o passado sempre maior que o presente do que as atualidades que correm o risco de desaparecem sem deixarem vestígios no ano seguinte. Ou na semana seguinte. Com salas de cinema restritas aos parcos e desinteressantes lançamentos que aportam em Rio Grande e Pelotas acaba que vejo menos do que gostaria. Devo ter assistido em torno do triplo do número de títulos listados abaixo no que estreou no Brasil em 2014. Os que mais apreciei foram de cineastas cujas carreiras acompanho com atenção.


1) Era uma Vez em Nova York (James Gray)
O triunfo da dramaturgia, da encenação, da inteligência e da elegância.


2) Bem Vindo a Nova York (Abel Ferrara)
Uma questão moral e de poder muito longe de um filme moralizante. E o trabalho que Depardieu (Jacqueline Bisset também está um assombro) merecia há umas duas décadas.


3) O Gebo e a Sombra (Manoel de Oliveira)
Purgatório heróico. Filme de fantasmas.


4) Amar, Beber, Cantar (Alain Resnais)
O crepúsculo da fase tardia de Resnais e suas obsessões com a vida como um grande teatro, em que há espaço para a comédia e emoções diversas (além de gênio o cinema perdeu ano passado um dos seus grandes gozadores).


5) Jersey Boys (Clint Eastwood)
Não o melhor Clint recente (o posto ainda é de Hereafter), mas outra sempre bem-vinda refrescada em seu cinema sem perder sua assinatura e autenticidade.


6) Debi e Loide 2 (Bobby & Peter Farrelly)
Só o retorno de uma das melhores duplas cômicas do cinema, com as grandes piadas se sobrepondo bem às mais tolas.


7) Vidas ao Vento (Hayao Miyazaki)
Pequena animação de imagens encantadoras


8) Cães Errantes (Tsai Ming-liang)
Radical experiência de contemplação.


9) O Ciúme (Philippe Garrel)
Um tanto formatadinho para o público recente do cinema do diretor, cujo estilo precisa se voltar contra o que ele próprio se tornou, mas um Garrel batendo cartão é ainda superior a maioria dos outros cineastas.


10) Uma Relação Delicada (Catherine Breillat)
Beira o desagradável, mas não o ofensivo, com o corpo de Huppert perigando sucumbir à doença e a velhice.

Garota Exemplar (David Fincher, 2014)

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Gone Girl, David Fincher, 2014 ***

Um Supercine de luxo. Thriller absorvente, o problema nem é a inverossimilhança, que um Hitchcock defendia veementemente ainda mais num gênero como o suspense, mas os absurdos e excessos rocambolescos que só o comprometem e o afundam. Bem filmado, mas um tanto descartável, ainda que envolvente, da mesma forma quando nos contam uma anedota, no caso uma anedota ruim, mas que nos prende a atenção enquanto a acompanhamos porque quem a revela sabe contá-la. Preferia ter visto um Millenium 2, até porque a galeria de personagens femininas de Fincher é bem mais interessante que se supõe ─ até Millenium, pelo menos, porque a de Gone Girl nem é uma personagem, mas várias numa só, o que por mais que o teatro de aparências esteja em jogo e em discussão, ocorre porque o material assim o deseja em sua vontade de manipulação, não pela coerência interna e plausível que seria o mínimo a se esperar dentro das metamorfoses que passa a protagonista. Há algo de quase notável na primeira parte (incluindo na personagem feminina), quando alterna os pontos de vista de marido e esposa, cada um narrando sob o próprio ponto de vista o processo de transformação do matrimônio até a queda e sumiço da mulher. Depois um tanto cínico, porque passa de mulheres que sofrem nas mãos de maridos desinteressados e egoístas para mulheres psicopatas e aterrorizantes que destroem com homens coitadinhos. Pode ser divertido, mas mal se presta a revisões.