“Vamos nos aventurar aqui: essa ‘lógica da visão e da distração’ tem um limite, e nós começamos a percebê-lo. Há muito tempo existe um cinema da ‘evidência e do esplendor da verdade’: trata-se do cinema publicitário, no qual toda a verdade é imediatamente comprovável, onde seclaramente a aparição do furacão branco, a maciez do caramelo Kréma ou a mancha mais difícil ceder diante do K2R. A maior parte do cinema distribuído comercialmente, no que ela é a ‘valorização’ de um material já existente, se origina cada vez mais da estética publicitária e inventa os temas e as preocupações (a “tomada de consciência” sob as formas gêmeas e rivais da propaganda e da publicidade) que essa estética implica. O inegável sucesso da série Salador (realizada por dois ‘cineastas’: Pirés e Grimblat) deveria já incitar o grande capital a não mais tolerar o desperdício de tais talentos em pseudofilmes. Também Lelouch, em lugar de fingir que trata de um tema dramático com Montand no Congo (Vivre pour vivre, 1967), faria diretamente o elogio de uma marca de uniformes em combate; ou Melville, em lugar de contrabandear a tragédia grega para um filme noir, exaltaria uma marca de capas de chuva. Existe aqui a possibilidade de uma reciclagem gigantesca.”

Trecho de um capítulo de A Rampa, de Serge Daney, de um artigo escrito no começo da década de setenta, em que discorre sobre o cinema que é vítima de uma estética publicitária que está cada vez mais a ganhar as telas mundo afora, muitas vezes sob aplausos de um público preguiçoso e anestesiado.

Top 20 Itália

Atendendo sugestões, dessa vez os meus filmes italianos favoritos, novamente limitando dois títulos por diretor (até porque se não fosse assim metade dessa lista seria formada por Visconti e Rossellini).

01. Morte em Veneza (Luchino Visconti, 1971)
02. Viagem a Itália (Roberto Rossellini, 1953)
03. Três Homens em Conflito (Sergio Leone, 1967)
04. Rocco e Seus Irmãos (Luchino Visconti, 1960)
05. Profissão: Repórter (Michelangelo Antonioni, 1975)
06. Quando Explode a Vingança (Sergio Leone, 1971)
07. Europa 51 (Roberto Rossellini, 1952)
08. O Ciclo do Pavor (Mario Bava, 1966)
09. A Primeira Noite da Tranquilidade (Valerio Zurlini, 1972)
10. Dois Destinos (Valerio Zurlini, 1962)
11. O Eclipse (Michelangelo Antonioni, 1962)
12. De Punhos Cerrados (Marco Bellocchio, 1965)
13. A Hora da Religião (Marco Bellochio, 2002)
14. Os Boas Vidas (Federico Fellini, 1953)
15. Lisa e o Diabo (Mario Bava, 1972)
16. Profondo Rosso (Dario Argento, 1975)
17. O Vingador Silencioso (Sergio Corbucci, 1968)
18. A Comilança (Marco Ferreri, 1973)
19. Um Dia Muito Especial (Ettore Scola, 1977)
20. Uma Simples Formalidade (Giuseppe Tornatore, 1994)

Top 20 França

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Os meus vinte filmes franceses preferidos (com o limite máximo de dois por diretor).

01. Ano Passado em Marienbad (Alain Resnais, 1961)
02. A Regra do Jogo (Jean Renoir, 1939)
03. O Desprezo (Jean-Luc Godard, 1963)
04. O Demônio das Onze Horas (Jean-Luc Godard, 1965)
05. O Atalante (Jean Vigo, 1935)
06. Noite e Neblina (Alain Resnais, 1955)
07. Duas Garotas Românticas (Jacques Demmy, 1967)
08. Aos Nossos Amores (Maurice Pialat, 1983)
09. A Mãe e a Puta (Jean Eustache, 1973)
10. A Idade de Ouro (Luis Buñuel, 1930)
11. A Carruagem de Ouro (Jean Renoir, 1952)
12. O Dinheiro (Robert Bresson, 1983)
13. A Bela Intrigante (Jacques Rivette, 1991)
14. Playtime (Jacques Tati, 1967)
15. O Discreto Charme da Burguesia (Luis Buñuel, 1972)
16. Índia Song (Marguerite Duras, 1975)
17. O Joelho de Claire (Eric Rohmer, 1970)
18. O Diabo Provavelmente (Robert Bresson, 1977)
19. Amantes Constantes (Philippe Garrel, 2005)
20. Água Fria (Olivier Assayas, 1994)

Une Femme Douce (Robert Bresson, 1969)

Elle despreza o dinheiro, mas tampouco suporta a miséria em que vive. Luc conta que já foi pobre, promete tirar Elle dessa condição. Mas Elle desde o começo sabe que ele não quer amor, quer apenas que  aceite casar com ele. O argumento, extraído de um conto de Dostoievski, é a de que o casamento como mercadoria serve para desencadear a dissolução inexorável das estruturas de uma vida, dentro das instâncias sociais que reprimem e moldam o indivíduo em meio a sociedade de controle – a de consumo – através basicamente do imaginário. O poder da imagem como modo de manter a coesão social e a supremacia do capital. Luc se apaixona por uma imagem (Elle), porém é incapaz de amá-la. Mas as necessidades materiais a tornam (contra sua própria vontade) um bem de consumo, que serviria para satisfazer as necessidades econômicas de um lado, e os desejos emocionais e psíquicos do outro. São personagens que se conservam um ao outro como mistérios cujos segredos permanecem silenciosamente trancados dentro de si mesmos. Luc, um calculista e frio manipulador, e ela uma vítima em busca de sua inocência perdida, presa como símbolo da erotização da imagem e do consumo, querendo escapar do controle. A luta de Elle é para desfazer a vida artificial de seu matrimônio, da relação com o conjugue dentro de uma companhia cada vez mais programada e robótica, o que a leva a loucura e a impossíveis planos para romper com seu isolamento estanque. Une Femme Douce é outro dos grandes pesadelos materialistas  filmados por Bresson e começa uma nova e mais interessante fase em sua carreira, em torno do desespero pessimista e caótico frente à vida industrializada moderna, cujo ápice se dará com a tensão quase insuportável de O Dinheiro (1983), o seu último e talvez melhor trabalho.

Zumbilândia (Ruben Fleischer, 2009)

“O cara aí sou eu. Em Garland, Texas. Parece destruída por zumbis, mas já era assim antes”. Uma das boas surpresas do ano é esse grande divertimento com toques de horror e aventura, numa conjugação de gêneros cinematográficos que rima canibalismo com adolescência (num cruzamento improvável entre Romero e Greg Mottola), com o protagonista juvenil (Jesse Eisenberg, de Adventureland) perdido diante de um mundo inscrito no clássico tema da possessão, do vazio e descaracterização dos monstros humanos que cruzam o seu caminho e contra os quais precisa lutar. O filme de Fleischer possui também aquela noção de camaradagem de um pequeno grupo em torno de um trabalho em equipe que John Carpenter herdou diretamente de Hawks (contando inclusive com Woody Harrelson como um velho caubói em uma versão madura e menos simpática do personagem de Kurt Russell em Os Aventureiros do Bairro Proibido). São ambos os papéis de Eisenberg e Harrelson personagens postos à margem de uma sociedade falida, e ao se encontrarem numa estrada desértica, terão que se unir para se deslocarem por todo um país devastado em sua imensidão apocalíptica, não sem antes precisarem superar uma desconfiança inicial em relação um ao outro, se formando  uma ética de relação entre os dois e a necessidade de se juntarem diante da adversidade. Mais adiante, nas figuras de duas irmãs que vivem de pequenos golpes temos o surgimento das presenças femininas invadindo o espaço masculino tanto para ajudar quanto para atrapalhar a vida de nossos heróis, o que vai realçar a crescente dificuldade dos personagens em confiar um nos outros. Zumbilândia marca pela fluidez de sua narrativa e por ser direto e inconseqüente, sem grandes preocupações (o que não deve ser confundido com superficialidade) e com achados perversos como o de logo no começo inserir em cena a vizinha dos sonhos do rapaz como uma morta-viva. Já a supracitada participação de Bill Murray é uma sequência muito engraçada se pensada isoladamente (ela parece estar à parte do filme), mas tira o filme dos trilhos momentaneamente (Harrelson, por exemplo, se torna patético e irritante demais nessa hora). Parece que a continuação já está prevista para o ano que vem, a ser comandada pelo mesmo diretor.

Cidade dos Sonhos (David Lynch, 2001)

Cumpri uma prometida revisão de Mulholland Dr. a muitos conhecidos cinéfilos que respeito e que possuem o filme em alta conta. Mas não tem jeito, ou eu tenho problemas com o filme ou então é daqueles que é preciso rever umas seis vezes para se realmente passar a gostar dele. E quanto a “gostar” não me refiro ao mesmo que “entender”, até porque existem muitos filmes que eu não entendo, mas curto muito (ao passo que vários outros que compreendo do começo ao fim não fazem a minha cabeça), mas com Mulholland Dr. não rola. Ok, o filme não é ruim como eu há anos venho implicando (se bem que a minha birra sempre foi mais com muitos dos seus fãs do que ao filme em si), a relação das duas garotas possui diversos elementos suficientes para torná-lo uma obra instigante. Mas cheguei a conclusão de que gosto mais do filme em teoria, por causa de muito dos seus simbolismos em torno de duas mulheres enredadas na loucura do mundo cinematográfico, inversões de papéis, trocas de identidades, etc. Na verdade, foi revendo Fedora para escrever a crítica pro Cineplayers que me bateu a vontade de rever Mulholland Dr., mas enquanto no de Billy Wilder os seus mistérios e revelações se explicam por si mesmo fazendo todo o sentido do mundo, no de Lynch é necessário o recurso do sonho para esclarecer toda a confusão em suas artimanhas para pescar o espectador, atirando ganchos para que sejam capturados mais tarde e dando origem ao seu jogo de possibilidades.  Mas o pior nem é isso, mas alguns detalhes toscos que perpassam o filme, como muitas das cenas envolvendo o jovem diretor de cinema (quando um dos executivos numa reunião cospe o café que estava tomando, ou o cineasta chegando em casa e encontrando a esposa com o amante, etc.) ou nos delírios da moça no final (aqueles homenzinhos invadindo a sala, por exemplo). O curioso é que todas essas constatações me fizeram achar os momentos fortes ainda mais fortes, e por isso o filme, se cai por um lado, se fortalece por outro. Mas eu ainda estaria sendo desonesto se dissesse que gosto do filme.