Cidade dos Sonhos (David Lynch, 2001)

Cumpri uma prometida revisão de Mulholland Dr. a muitos conhecidos cinéfilos que respeito e que possuem o filme em alta conta. Mas não tem jeito, ou eu tenho problemas com o filme ou então é daqueles que é preciso rever umas seis vezes para se realmente passar a gostar dele. E quanto a “gostar” não me refiro ao mesmo que “entender”, até porque existem muitos filmes que eu não entendo, mas curto muito (ao passo que vários outros que compreendo do começo ao fim não fazem a minha cabeça), mas com Mulholland Dr. não rola. Ok, o filme não é ruim como eu há anos venho implicando (se bem que a minha birra sempre foi mais com muitos dos seus fãs do que ao filme em si), a relação das duas garotas possui diversos elementos suficientes para torná-lo uma obra instigante. Mas cheguei a conclusão de que gosto mais do filme em teoria, por causa de muito dos seus simbolismos em torno de duas mulheres enredadas na loucura do mundo cinematográfico, inversões de papéis, trocas de identidades, etc. Na verdade, foi revendo Fedora para escrever a crítica pro Cineplayers que me bateu a vontade de rever Mulholland Dr., mas enquanto no de Billy Wilder os seus mistérios e revelações se explicam por si mesmo fazendo todo o sentido do mundo, no de Lynch é necessário o recurso do sonho para esclarecer toda a confusão em suas artimanhas para pescar o espectador, atirando ganchos para que sejam capturados mais tarde e dando origem ao seu jogo de possibilidades.  Mas o pior nem é isso, mas alguns detalhes toscos que perpassam o filme, como muitas das cenas envolvendo o jovem diretor de cinema (quando um dos executivos numa reunião cospe o café que estava tomando, ou o cineasta chegando em casa e encontrando a esposa com o amante, etc.) ou nos delírios da moça no final (aqueles homenzinhos invadindo a sala, por exemplo). O curioso é que todas essas constatações me fizeram achar os momentos fortes ainda mais fortes, e por isso o filme, se cai por um lado, se fortalece por outro. Mas eu ainda estaria sendo desonesto se dissesse que gosto do filme.

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6 Respostas para “Cidade dos Sonhos (David Lynch, 2001)

  1. Cidade dos sonhos me parece um filme sem significados ou sem preocupação de deixar entender os diálogos. o que mais me excita em Lynch é o hedonismo visual provocado no cinéfilo. hoje em dia quem busca entender as coisas ? as coisas se mostram de fato como elas são. caleidoscópio de insanidades, pertubador.

    Grande blog, Valeu.

  2. O pior não é a falta de compreensão, mas a falta de consistência. É que vejo dois filmes em Cidades dos Sonhos. Um é o das duas personagens femininas, com todas aquela relação e ambiguidade que o tornam intrigante e sedutor (no que concordaria com o seu comentário), e um outro correndo por fora, mas cheio de coisas toscas e erradas por parte de Lynch.

  3. Minha curiosidade para assistir este filme é imensa, pelo que li, é semelhante à temática de “Persona” de Bergman ou é somente impressão? Quando um filme testa minha capacidade de entendê-lo como parece ser o caso deste, eu faço questão de rever para pelo menos obter uma interpretação coerente e que faça sentido sem desmerecer o poder das imagens em sua totalidade. Parece que “Cidade dos Sonhos” é mais elaborado, através de sua análise concluí que não se resolve assim tão facilmente.

  4. Coincidência, vendo hoje cedo a foto que ilustra o post, pensei justamente em Persona, algo que não me veio na cabeça nas vezes em que o assisti, mas pode ter algo sim do filme do Bergman, na relação entre as duas mulheres. Também já encontrei comparações de Cidade dos Sonhos com um dos meus filmes preferidos, Céline et Julie vont en Bateau, do Rivette, que também rompe as fronteiras entre o mundo exterior e os sonhos, o presente e passado, realidade e ficção também em torno de duas amigas.

  5. Acho Cidade dos Sonhos um dos principais filmes anti-Hollywood. O cineasta lá é um pequeno gancho pra isso, e traz aquelas cenas absurdas dentro do limite justamente por causa disso – ao passo em que o estudo de personagem (o núcleo das personagens femininas) é feito de forma totalmente fora do convencional, ao avesso. E não se esqueça que o tal Adam Kesher é o cara mais odiado da protagonista, então muita coisa ali é o universo onírico da protagonista detonando ele ao máximo, o que só a ficção seria capaz de fazer. Uma experiência sensorial ambígua que deseja, acima de tudo, quebrar os padrões do cinema.

  6. Este filme é uma obra-prima, e contém algumas das imagens mais soberbas e fortes do cinema dos últimos anos. Nada se compara a Lynch, em termos de criatividade e provocação, no cinema americano. Pra mim, o sentido que CIDADE DOS SONHOS faz é plenamente satisfatório, ainda que eu mais sinta do que entenda o filme. Por isso vejo grandeza nele. E o nightclub Silencio jamais sairá de minha memória de cinéfilo…

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