A Fita Branca (Michael Haneke, 2009)

Como sempre, Haneke é um diretor tecnicamente talentoso, só que uma vez mais coloca sua perícia cinematográfica a cargo de sua visão espúria do mundo. Os seus filmes (pelo menos os que assisti) costumam ser um exercício em brutalização do espectador. Dessa vez ele traveste seu cinema com uma aura artística e uma estética fria e em preto-e-branco que garante um respeito (e quem sabe certa subserviência) por parte do publico, e também me faz pensar que ver Bergman em excesso  pode ser algo nocivo a um cineasta. O austríaco utiliza como pretexto mostrar o quanto o mundo é cruel e bárbaro para ele próprio, no final das contas, se mostrar ainda mais escroto, versando em particular em seu poder de mais do que chocar, submeter a sua platéia. Nada contra em ilustrar a barbárie humana, desde que não se furtasse em também apresentar um senso de revolta, uma resistência e indignação e ao menos uma tentativa de mudança de quadro. Para Haneke não, o mundo é dessa maneira e nada pode ser feito para alterá-lo, pois estamos num filme de tese em que quase todos os elementos estão lá para conduzir o espectador a mesma conclusão, dentro de um forte esquematismo em que quase todos são animais e é raro algum personagem não ser mais que um boneco nas mãos de Haneke, conforme o interesse da demonstração. Isso dito, temos um dos filmes mais reacionários dos últimos tempos, por um realizador que parece estar à parte (e acima) dos seus personagens, e que se esconde por trás de uma parábola sobre a origem do nazismo para reiterar toda a misantropia que é freqüente em sua obra. Por sinal, veio-me à lembrança outro filme recente sobre o surgimento do fascismo naquele mesmo período, Vincere, de Marco Bellocchio, esse sim um filme que, com todo o seu calor humano e sendo tão ou mais cruel e violento quanto A Fita Branca, mostra um mínimo de indignação e, especialmente, não se omite e nem se esconde como se não estivesse no mesmo barco que seus personagens. Pensar em Vincere depois de ver o filme de Haneke nos faz recordar o quanto o do diretor italiano é muito bom. O humanismo e a revolta de Bellocchio é o antídoto para o que, de mais asqueroso, filmes como A Fita Branca insistem em apresentar.

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2 Respostas para “A Fita Branca (Michael Haneke, 2009)

  1. Estou com ele aqui em casa e ainda não assisti. O Haneke, como cineasta, está na mesma categoria do Lars Von Trier: ele gosta de chocar o público. Isso de alguma forma o alimenta.

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