Desculpem pela falta de atualizações, passei as ultimas semanas vendo filmes e escrevendo para projetos futuros do Cineplayers. Um deles é o prosseguimento de uma série de textos sobre Peter Bogdanovich, com resenhas para alguns de seus filmes (com preferência mais aos filmes negligenciados do que aos comentados de sempre), um trabalho já iniciado recentemente com críticas minha e do Daniel Dalpizzolo e que se entenderá pelos próximos meses (em breve deverá entrar uma escrita por mim para Daisy Miller). O outro projeto é de um especial que ainda deve demorar um pouco para entrar no ar, mas que vem sendo preparado pela equipe.

Para a programação do blog voltar ao normal, comentários rápidos sobre alguns dos últimos filmes vistos:

Seconds (no Brasil, O Segundo Rosto) de John Frankenheimer é decepcionante. O filme atrai pela premissa e se sustenta pela direção de Frankenheimer, mas é basicamente metade dele o personagem central querendo mudar de rosto, e a outra metade desejando voltar ao normal. Não há perigos, nem complicações com que o protagonista tenha que lidar e enfrentar a partir da nova identidade. E é preciso um sentimento de aceitação por parte do espectador para acreditar que John Randolph se transforma em Rock Hudson, algo que não convence apenas a partir da encenação. Não é problema de inverossimilhança, mas de falta de plausibilidade mesmo. Aliás, com exceção de Sob o Domínio do Mal, haverá algum outro filme de Frankenheimer que tenha envelhecido bem e que hoje em dia seja realmente espetacular? 

Por outro lado, Nasce um Monstro, de Larry Cohen, é muito bom. A premissa de um bebê assassino é tão ou mais absurda que a de Seconds, só que no filme de Cohen funciona melhor por causa da sua narrativa de fábula de terror, dentro de uma lógica nada realista (pois está calcada na fantasia), ao invés do tratamento “realista” do de Frankenheimer. É um dos exemplares mais perturbadores e eficientes do gênero na década de setenta.

Estive revendo os dois últimos e excelentes filmes de Truffaut: A Mulher do Lado (1981) e De Repente, no Domingo (1983), quando o francês estava em sua melhor forma. Era a sua maturidade, e acredito que seus melhores trabalhos se encontram em sua maioria nos primeiros filmes e nos últimos feitos a partir de O Homem que Amava as Mulheres. De Repente, no Domingo é a sua mais bem-sucedida aproximação com o universo de Hitchcock, onde ele não sofre com o desafio de encenar seqüências que contenham mais ação, porque o suspense e a tensão são garantidos mais pelas relações entre os personagens e a fuga/investigação do protagonista (que permanece ambíguo o tempo todo) querendo comprovar sua inocência. De certo modo, o filme possui a maioria dos elementos que compõem a obra do cineasta francês. E gosto mais de outras atrizes que trabalharam com Truffaut (Catherine Deneuve, Isabelle Adjani, etc.), mas começo a achar que nenhuma esteve tão bem nos filmes do cineasta quanto Fanny Ardant (com quem ele era casado quando faleceu), a estrela desses seus dois últimos trabalhos.

Também assisti os primeiros longas de Jacques Rivette: Paris nos Pertence (1960) é muito bom, no estilo e despojamento das demais estréias dos diretores da Nouvelle Vague, mas o segundo, A Religiosa (1966), é bem melhor, já com muito do que se veria na carreira posterior do cineasta, que evidencia os jogos de dominação e em como a personagem-título sem vocação alguma lida contra a própria vontade com as constantes inversões das personalidades dominantes das demais colegas e superioras dos conventos por onde passa: tanto o da cegueira religiosa e conservadora no primeiro em que é recebida, quanto o erotismo velado e falsos interesses que encontra no segundo. A elegantíssima câmera de Rivette nos conduz com grande interesse e alguma ironia pelo contrastado ambiente de exuberância e baixeza dos jogos morais dos quais é vítima a personagem encarnada por Anna Karina (em seu desempenho mais forte no cinema, disparado). A Zingu tem um texto muito bom do Filipe Chamy sobre o filme de Rivette, aqui.

Anúncios

3 Respostas para “

  1. Ainda bem que está de volta! Estou aguardando seu trabalho sobre Bogdanovich, já leu “Como a Geração Sexo, Drogas e Rock ‘n’ Roll Salvou Hollywood”? É um trabalho super interessante de Peter Biskind que reúne informações reveladoras de diversos cineastas que despontaram na década de 70. Bogdanovich está incluso na trupe de diretores, e posso afirmar que fiquei boquiaberta com as revelações !

  2. Está todo mundo lendo esse livro, por enquanto ainda não li. Mas já me falaram de muitas curiosidades e detalhes escabrosos envolvendo o pessoal daquela época.

  3. Sobre Frankenheimer: me arriscaria a apontar O HOMEM DE KIEV (The Fixer), de 1967, como um filme que resistiu ao tempo. Mas não o vejo há pelo menos 35 anos. Alan Parker sem duvida bebeu nessa fonte ao rodar O EXPRESSO DA MEIA-NOITE´.

    SETE DIAS DE MAIO (1964) se destaca pela correção e abordagem enxuta numa fase onde os thrillers políticos estavam na moda, como TEMPESTADE SOBRE WASHINGTON, de Preminger,
    e VASSALOS DA AMBIÇÃO, de Schaffner.

    Revendo GRAND-PRIX (1966), em Blu-ray, impressiona, apesar do superficialismo conferido às relações humanas e bastidores do círculo da Fórmula 1, a capacidade técnica da encenação, o domínio estético sobre o complicado super-espetáculo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s