Skidoo se Faz a Dois (Otto Preminger, 1968)

Ando vendo e revendo filmes de Otto Preminger para um projeto futuro e há uma penca de excelentes filmes em sua carreira. Um diretor que consegue ser distinto até mesmo em seus maiores fracassos. Skidoo se Faz a Dois é um desses filmes que parecem melhores de escrever, do que de ver. Dá para sacar diversos conceitos, dá para ver o que Preminger queria, mas a verdade é que tudo isso são ideias que não se resolvem enquanto filme. E o próprio cineasta tinha noção de que o filme não teria como ser bem-sucedido, como ele revela em suas entrevistas para Peter Bogdanovich. Skidoo é o resultado de suas experiências com ácido lisérgico e a visão excessivamente cartunesca de Preminger sobre o movimento hippie, onde tudo é uma grande caricatura do mundo moderno em plena revolução de costumes. Mais próximo do trabalho de Preminger em sua curta participação como ator no seriado Batman (por causa dos elementos camp e do psicodelismo) do que de qualquer outra obra assinada pelo cineasta, o próprio filme por vezes lembra mais uma estrutura de seqüência de sketkes de programa de humor de TV (alguns mais apressados poderiam associá-lo ao tipo de comédia besteirol que vinte anos depois se popularizaria no cinema e na televisão), em torno de uma galeria de tipos bizarros com um cast formado por comediantes fracassados ou em franca decadência (incluindo Groucho Marx, em seu último papel no cinema, interpretando um mafioso chamado Deus). É um divertimento satírico e cheio de gozações que vale mais pelo experimento do que pelo resultado propriamente dito, um filme com momentos inspirados, mas cuja proposta muito cedo é levada rumo a um processo de auto-esgotamento. Não é a toa que seja um filme adorado apenas pelos autoristas, que se perderão com certo deleite no universo premingeriano, enquanto que todos os demais certamente nem ao menos fazem questão de compreender esse objeto fílmico um tanto quanto bizarro.

Novo filme de Abel Ferrara previsto para estrear no Brasil

Uma agradável surpresa nas atualizações do site Filme B: o mais recente filme de Abel Ferrara entrou no calendário de estréias nacional com previsão para setembro, pelo grupo Paris Filmes, mas ainda sem data definida. Pode até ser que o filme não estréie mês que vem, dado a inconstância do calendário de estréias de nosso circuito, mas só de ver o filme de Ferara ali já é um alento, visto que até onde eu sei dos últimos cinco longas que ele dirigiu desde Blackout (1997), apenas Maria entrou em cartaz nas telas brasileiras. O filme novo chama-se Napoli Napoli Napoli, produção italiana do ano passado, um drama dividido em três episódios diferentes, cuja inspiração partiu de uma entrevista de Ferrara a um grupo de condenadas da penitenciaria estadual feminina na Itália (os dois longas anteriores do diretor, Maria e Go Go Tales, já eram co-produções italianas). É o seu primeiro filme em muito tempo sem estrelas (todos os atores também são italianos), e os episódios foram escritos por membros da associação juvenil anti-crime Figli del Bronx, numa linha entre a ficção e o documentário.

Necrólogio de um gênio (Rogério Sganzerla*)

 O Terceiro Mundo está de luto. O “homem da metralhadora giratória”, de tão bons e importantes momentos de nosso cinema, expirou no mês tradicionalmente trágico e fatídico para nossa vida nacional. Com ele, expira um dos capítulos mais inspirados (e agitados) do audiovisual brasileiro. Homem-chave da cultura, político e agitador cultural dos mais precoces, o autor de “Deus e o diabo na Terra do Sol”, realizado no sertão de Cocorobó em 1963, nos deixa arrasados, em completo desamparo físico e espiritual. Sem dúvida, o Brasil perde um de seus mais ilustres brasileiros. Justamente aquele que melhor representou-o lá fora, desde o impacto de “Barravento”, em Karlovy-Vary – 1963, à aclamação de “Deus e o Diabo” e “Terra em Transe”, em Cannes – 1964 e 1967 que juntamente com “Idade da Terra” – incompreendido no Brasil e no mundo no ano passado – compõe sua trilogia sobre a relação do novo homem com a terra que o alimenta e o consome, dialeticamente um marco da cultura equatorial do Terceiro mundo. Trata-se de uma tragédia para a própria evolução da linguagem cinematográfica, assim como fora o desenlace de sua irmã Aneci Rocha, em 1977, no mesmo bairro de Botafogo. Muita falta fará sua voz, que revolucionou nossa ética estética e a razão de ser de uma arte industrial tão desprotegida pelas autoridades desde que foram feitas as primeiras projeções de imagens animadas numa sala da rua Ouvidor, no final do século passado.

 Herói e mártir da cultura nacional, por assim dizer, Glauber, como todo gênio (a palavra cabe-lhe como um côvado sagrado), com todos seus excessos e virtudes, viveu intensamente os altos e baixos períodos (ou marés… navegando pelo audiovisual como o peixe mais raro do lago maldito do subdesenvolvimento; nascido como Castro Alves, sob o signo crístico de Peixe, místico e misterioso como propõe seu nome em alemão: “enviado de Deus”… eis um mensageiro altaneiro de uma nova ordem, referindo-se ao novo homem, clamando por uma nova humanidade). Poeta condoreiro e reformador social, cantou a alegria e a tristeza dos tristes trópicos, de beatos e romeiros, cangaceiros e jagunços, do pescador ao conquistador. Pela sua própria conformação étnica e localização geográfica (nascido em Conquista, no ano em que mataram Lampião), Glauber assemelhava-se a um cangaceiro. Marcante como sua forma de andar, falar e tocar as pessoas, foi beneficiado pela inteligência – algo que vale a pena ser vivido -, que é uma questão de delicadeza e vice-versa, como lhe afirmei na última vez que estive com ele frente ao laboratório, também em Botafogo, onde nasceu (e morreu: hoje desalojado) – o novo cinema brasileiro que tanto sucesso fez na Europa… Exaltação e depressão fazem parte mesmo da história do país de dores (e doutores) anônimos. Com Glauber, seguramente acaba uma época de ouro do cinema; direta ou indiretamente, devemos-lhe tudo nas últimas duas décadas. Foi-se embora o concertista-mor, artífice de brilhantes óperas-cinematográficas, arranjador, encenador e coreógrafo do estranho balé do subdesenvolvimento. Que a nova geração ainda não teve chance de assistir na tela grande ou pequena. Sobretudo aqueles concertos feitos com poucos recursos materiais e “uma câmara na mão e uma idéia na cabeça”, com extrema criatividade na sua juventude na Bahia. No final de sua fulgurante carreira, pobre, só e esquecido em Sintra, contraiu a moléstia do romantismo: em seu peito inflado por nacionalismo contundente abrigou-se a doença que consumiu Castro Alves (seu correspondente direto), Álvares de Azevedo, Augusto dos Anjos, Noel e muitos outros verdadeiros parâmetros de uma nova ordem, insuspeitada até então por outros brasileiros. A noção de martírio cultural serve para definir a importância desse homem sem profissão (cineasta) em um país ocupado, sem memória ou respeito para com seus maiores criadores, infelizmente infelicitados ou impedidos de exercer seu ofício ou circular sua produção. Além de comunicador e polemista, perdemos um escritor, tabu incompreendido ou usado pelo conformismo, que praticamente morreu de fome (inflexível na sua posição estética), enquanto o cinema que ele construiu consome-se na acumulação de bens segundo um modelo novo-rico, sem compreendê-lo ou ampara-lo devidamente naquele exílio na rota de Sintra, que um dia levou Eça de Queiroz, de quem era admirador, às veredas literárias com seu primeiro romance. Glauber, depauperação pela fome, continua desterrado em seu próprio país, como a maioria dos brasileiros, enquanto o “National Film Board” inicia uma retrospectiva de seus filmes em Londres. Assim, ele agonizante e proscrito embarca como “outsider” famoso na Europa, mas esquecido por seu público, para morrer como herói no Brasil.

Injusto às vezes, mas procurando justiça, agressivo mas delicado, intolerante mas propenso ao diálogo (ao contrário do cinema que um dia foi novo) serviu-o como um recruta do absurdo, cidadão do conhecimento unificado, imperador das artes. É fundamental a relação entre S(ua) M(ajestade) Eisenstein-Glauber, sendo aquele, pelo menos para mim, o maior cineasta de todos os tempos. Glauber, gostávamos muito de você, mesmo quando abusava de sua autoridade… e você não sabia disso… Você que fez nosso cinema de valor, cujo aniversário coincide com o de Castro Alves, poeta condoreiro como você cujo(s) destino trágico coincide com o grande Camões, sabe talvez que “para o Santo não existe acidente”, salvo para a burguesia e “um tiro disparado sem querer”, como no caso de Alves, significa culpabilidade por parte de falsos amigos ou pessoas que não estiveram à altura. A altura, inclusive, de sua generosidade, talento e erudição; o trágico desenlace (chegou envenenado pela medicina alopática) confirma a oposição registrada com tanta propriedade (a tese ecumênica de “Idade da Terra” é perfeita) como realidade política do próximo século: a terra dividida (ainda mais…) entre os pobres e ricos. Você que nasceu e morreu pobre, contribuiu para enriquecer infinitamente nosso cinema, no bom e no mau sentido, continua incompreendido, injustiçado, sacrificado como sua maravilhosa irmã Aneci, que você chamava de “cangaceira”, e o próprio Capitão Galdino, vítima de “assassinato cultural”. Sangue derramado em vão ou não (a Cinemateca Brasileira pretende homenageá-lo com a exibição de todos seus filmes, guardados com maior carinho, com todo amor – como me diz ao telefone a inconsolável Lígia Fagundes Telles – “pois só assim o cinema vence a morte”), trata-se de um martírio que não deve ser capitalizado pela eterna minoria milionária de desalmados da tela. Glauber morreu paupérrimo, como exemplo para um anticinema que só pensa em dinheiro hoje, neste país de contrastes insuportáveis.

Cinema, como a vida, é luz e sombra, duplo etéreo e projeção das cavernas de Platão. Deve velar pelo outro lado do homem. Assim, Glauber que fez o novo cinema, parece finda-lo numa tumba junto à pranteada Aneci, com a dignidade dos gênios, nobres, gregos, selvagens, desprotegidos excepcionais e de fibra cristãos-novos, sem a mínima mancha de comercialismo… Identificados pelo martírio, ungidos pela transação ecumênica, beatificados pela paz do Espírito Santo de luz-pomba-olho… Pêsames a Paloma e irmãos. Sobretudo, condolências à dona Lúcia, personagem shakespereana por excelência…. Nunca mais veremos Glauber, a não ser nos seus filmes – momentos raros de afirmação da nacionalidade. Ou então na vida eterna: vai “victis” até a Via Láctea. Adeus, Glauber, vá se encontrar com Camões, Castro Alves, Aleijadinho, Tiradentes e Villa-Lobos. Luto no Terceiro Mundo.

*ORIGINALMENTE PUBLICADO NA “FOLHA DE SÃO PAULO” EM 24 DE AGOSTO DE 1981.

Revolution (Hugh Hudson, 1985)

Peguei o dvd de Revolution, um fracasso homérico dos anos 80 com Al Pacino, com um bocado de esperança de encontrar um grande filme maldito e injustiçado, tal como outros desprezados naquela década (O Portal do Paraíso, Parceiros da Noite com o mesmo Pacino). Longe disso. Trata-se de um drama de guerra e épico ruim que visto hoje parece um precursor de Coração Valente e O Patriota (não tenho dúvida de que se Revolution tivesse sido realizado nos anos 2000, com a sua mesma pieguice, teria sido um sucesso, diante de um público tão habituado a filmes ruins como os do nosso tempo). Basicamente é sobre um cidadão norte-americano que se vê obrigado a lutar na Guerra da Independência quando seu filho adolescente é convocado para ingressar no exército, e todo o filme é a sua passagem de pai covarde para herói destemido. O que mais chama a atenção é como Hugh Hudson (que vinha de um Oscar por Carruagens de Fogo) consegue estragar atores geralmente brilhantes. Nunca imaginei que veria Pacino em atuação tão constrangedora, a cena em que está com o filho doente nos braços é um solo de interpretação de dar vergonha. Mais para o final, de cabelo comprido, paga mico maior como uma versão histórica de Rambo. Definitivamente, um ator bem mais medíocre não teria resultado num trabalho tão ruim (Pacino ficou tão traumatizado com o fracasso que entrou em depressão e ficou anos sem aparecer nas telas). Donald Sutherland, como o oficial sádico e vilanesco, também nunca esteve tão inexpressivo, bem distante dos seus melhores dias como ator. O que dá mais raiva é saber que muitos filmes antigos mais ou menos relevantemente importantes jamais foram lançados em dvd por aqui, no entanto uma porcaria como essa é resgatada por nosso mercado distribuidor nada criterioso. Nem Nastassja Kinski salva.

O Escritor Fantasma (Roman Polanski, 2010)

Dá gosto acompanhar esse thriller político brilhantemente arquitetado por um veterano em plena forma, que segue mestre em confundir seus personagens entre a paranóia e a realidade. Polanski gosta de ferrar com os protagonistas de muitos dos seus filmes (vemos o próprio diretor na pele deles), e estes definitivamente são os melhores.

Sem falar que o assunto por trás do filme (os meandros e segredos dos bastidores da política internacional) é fascinante, e é inserido dentro de uma narrativa de suspense em que as coisas vão se desvendando devagar dentro de uma cadência absolutamente notável. O filme não entrega de saída qual será o seu tópico principal, pois este é um segredo muito bem guardado, do qual teremos idéia só muito depois de iniciado. É de uma ironia fina que só reforça ainda mais a sua tensão dramática, com um tom patético que vai irrompendo no filme ao apresentar um homem comum como o personagem de Ewan McGregor inserido no meio de questões aos quais jamais teria acesso (crimes de guerra e maquinações políticas), mas ele passa a estar o tempo todo ali, como um fantasma (de acordo com sua posição dew ghost whriter), e Polanski tira o maior sarro enquanto o filme segue mergulhando na piração do personagem, e o espectador pode ter dificuldade de acreditar que aquilo tudo realmente está acontecendo, mas justamente daí é que advém uma das maiores razões do interesse provocado por O Escritor Fantasma.

E o plano final é para não se esquecer nunca mais, resultado de uma tensão que vinha se acumulando a um bom tempo (pelo menos em sua última meia hora), culminando na descoberta através das páginas do manuscrito e o plano-sequência do bilhete fatal. É um desfecho que coroa um dos flertes mais bem-sucedidos da influência de Hitchcock que vez por outra se revela na obra de Roman Polanski.