Os Famosos e os Duendes da Morte (Esmir Filho, 2009)

Confesso que antes de ver Os Famosos e os Duendes da Morte (festejado por uma grande parcela da crítica e do público) nutria grande curiosidade pela sinopse que parecia tratar de um universo próximo ao meu, ambientado no sul do Brasil. Mas é impossível se identificar com o filme de Esmir Filho, que em muitos momentos parece uma versão esticada da cena com a sacola de plástico voando ao vento em Beleza Americana. Grandes obras geralmente partem do fator local e alcançam o universal sem abrir mão de suas autenticidades, em Os Famosos e os Duendes da Morte é o inverso, Esmir Filho se apropria de uma porção de artifícios estrangeiros (sobretudo de algumas das piores tendências do cinema independente norte-americano) para contar sua história regional que é um grande nada poético dentro de uma atmosfera fake. Eu mesmo tenho dificuldade de enxergá-lo como um filme nacional (o que, diga-se de passagem, é o menor dos seus problemas), assisti-lo é como estar diante de um filme indie dublado em português em exibição na Sessão de Gala da TV. Não é de espantar que tenha admiradores até mesmo no exterior: Os Famosos e os Duendes da Morte talvez seja bem mais fácil de ser apreciado por um gringo, ou então por alguém de terras brazucas com olhar viciado na espécie de cinema que o seu diretor emula. Há também o fetiche por outras referências de bom gosto, acima de tudo as canções e citações a Bob Dylan, o que me lembra que na época em que o extraordinário Falsa Loura foi lançado, a utilização de musicas bregas no filme foi um dos aspectos que mais causou o repúdio de muita gente que ignora que nesse filme as canções serviam melhor aos seus propósitos e eram cinematograficamente mais eficazes relativo ao contexto particular, ao contrário de Os Famosos em que a trilha serve quase que unicamente para torná-lo mais cool. Sobre a possibilidade de identificação que sugeri no começo do texto, um outro filminho apenas agradável como Houve uma Vez Dois Verões, de Jorge Furtado (que também transcorre no Rio Grande do Sul) cumpriu bem melhor esse papel sem ter que apelar para tanto drama.

My Son My Son What Have Ye Done (Werner Herzog, 2010)


O novo filme de Werner Herzog é muito bom. O primeiro desses seus mais recentes trabalhos americanos que me deixa genuinamente interessado. Na verdade mesmo desgostando dos dois anteriores é curioso acompanhar esse período novo de sua carreira, e embora nenhum dos filmes dessa safra seja especial, é possível que (juntos com os próximos que o diretor alemão possa ainda vir a realizar na América) numa ótica futura formem um conjunto mais notável do que se pensados isoladamentes. Esse novo começa como um filme de cerco comandado pelo detetive interpretado por Williem Dafoe diante de uma casa em que se refugia o filho suspeito de apunhalar e matar a própria mãe com a espada que guardara dos ensaios de uma peça do teatro grego baseada na tragédia de Orestes. Os flash-backs contados nas perspectivas da namorada do suspeito (Chloe Sevigny) e do seu antigo diretor deixam My Son My Son What Have Ye Done menos um filme sobre uma situação policial do que o progressivo desencadeamento de um processo de loucura a partir da paranóia do personagem que passa a misturar realidade com ficção, e fazem com que o próprio Williem Dafoe se torne um coadjuvante no filme cujo elenco encabeça. Herzog se esmera na condução e na criação de muito clima e de suspense, mas sem as doses de afetação e riscos calculados do imediatamente anterior Vicio Frenético. A esperada parceria de Herzog com David Lynch (que produziu a fita) não decepciona.

Tops 1960/1961

Como não venho postando na frequência que gostaria, decidi começar uma série de Top 10, de 1960 em diante, uma idéia que eu vinha pensando para o rate your music, mas que resolvi trazer para cá.

O objetivo é mapear o que de melhor se fez em cada ano, dentro do meu gosto particular e entre os filmes que pude assistir, e o mais importante que é me obrigar a ver logo muitos dos filmes que tenho cópia e que até agora não assisti. Poderia ter começado na década de cinquenta (ou antes), só que ali o número de grandes filmes que ainda não conheço é bem maior, portanto, é preferível iniciar nos sessenta mesmo.

Ainda não sei ao certo a frequência com que as listas aparecerão, acredito que ao menos uma ou duas por semana, no mínimo. E sempre que possível tentarei evitar casos de empates nos tops publicados, mas vez ou outra eles se tornam inevitáveis (como na lista de 61, na qual não consegui me decidir entre os dois que ficaram por último).

1960

01. Rocco e Seus Irmãos (Luchino Visconti)
02. A Tortura do Medo (Michael Powell)
03. Os Mil Olhos do Dr. Mabuse (Fritz Lang)
04. O Mensageiro Trapalhão (Jerry Lewis)
05. Psicose (Alfred Hitchcock)
06. Os Olhos Sem Rosto (Georges Franju)
07. Juventude Desenfreada (Nagisa Oshima)
08. Mulheres Fáceis (Claude Chabrol)
09. A Aventura (Michelangelo Antonioni)
10. Dia de Outono (Yasujiro Ozu)

1961

01. Ano Passado em Marienbad (Alain Resnais)
02. Todos Porcos (Shohei Imamura)
03. Viridiana (Luis Buñuel)
04. Os Inocentes (Jack Clayton)
05. Desafio a Corrupção (Robert Rossen)
06. A Lei dos Marginais (Samuel Fuller)
07. O Terror das Mulheres (Jerry Lewis)
08. Lola, a Flor Proibida (Jacques Demy)
09. A Noite (Michelangelo Antonioni)
10. A Moça com a Valise (Valério Zurlini) + Clamor de Sexo (Elia Kazan)

As Safadas (C. Reichenbach/ Inácio Araujo/ Antonio Meliande, 1982)

Filmes em episódios já foram mais freqüentes no cinema brasileiro (e mundial também), um dos mais coesos a ser apontado pode ser essa produção da Boca do Lixo realizada em tempo recorde e com orçamento limitadíssimo (do inicio das filmagens ao lançamento nos cinemas foram apenas três meses). O que mais se ressente foi a cópia bem ruim que tive em mãos, que atrapalhou um pouco e fez com que eu custasse a prestar mais atenção ao primeiro episódio, “A Rainha do Fliper”, do Carlos Reichenbach, que desde já pede uma nova revisão.  Mistura um melodrama sensível com características marginais e esboça elementos que percorrem muito da obra do diretor, especialmente ao se concentrar num personagem feminino com vida difícil e obrigada pelas a se dividir entre uma circunstância e outra. A cena de amor entre os três personagens ao som de Al Green é para se guardar, pode-se dizer que faz par com o menage no final de O Império do Desejo (1980), ao som de Make It Good, dos Beach Boys.

O segundo episódio, “Uma Aula de Sanfona”, é assinado pelo Inácio Araújo (em sua única incursão como cineasta), que parece abrir com uma referência explicita a Janela Indiscreta, com as janelas do prédio se definindo pela luz que as ilumina de dentro, até a câmera escolher uma das janelas do apartamento onde transcorrerá o segmento, um primor de condução na tentativa de relacionamento entre os quatro personagens através de pequenas trapaças e nas soluções visuais para explorar os espaços restritos (incluindo travellings através dos tapetes), o episódio flui admiravelmente tanto em termos de narrativa quanto de imagem. Muito por conta também do trabalho do elenco, especialmente no desprendimento de Sandra Grafiti e do personagem um tanto misterioso de Claudio Mamberti. Pena que o final deixe a desejar, ao menos a resolução não desce muito bem como o restante do episódio (pesquisando depois do filme descobri uma declaração do Carlos Reichenbach dizendo que Inácio teria se inspirado em Naked Kiss de Samuel Fuller para criar o desfecho de sua história). Aliás, aqui tem um texto muito bom do Reichenbach sobre o episódio Uma Aula de Sanfona.

A terceira história, “Belinha, a Virgem”, de Antonio Meliande, a principio parece destoar um pouco, mas fecha o filme com dignidade se entendermos que se trata de uma comédia erótica, no caso a respeito de uma virgem dando golpes em velhos pervertidos, mas sem perder a virgindade, que pretender conservar para entregar ao noivo depois do casamento. Há piadas fracas e momentos frágeis no segmento, que se salva na cena hilária com o padre encarregado de extrair a confissão de seus pecados. A atriz Vanessa Alves, no auge da beleza, carrega o episódio nas costas.

Saló ou os 120 Dias de Sodoma (Pier Paolo Pasolini, 1976)

Finalmente assisti Saló ou os 120 Dias de Sodoma. Não foi um filme que corri para ver porque o pouco que conheço de Pasolini nunca foi suficiente para me tornar admirador do cineasta. Geralmente gosto dos seus filmes em teoria, pelo que eles dizem, mas na hora de assisti-los raramente me deixam completamente satisfeitos. Simpatizo com a idéia de um Cristo revoltado e comunista em O Evangelho Segundo São Mateus, mas o filme em si não tem o brilhantismo das obras que Nicholas Ray e Martin Scorsese realizaram sobre o personagem. Da mesma forma que se pode dizer que Teorema é um belo ataque a família como instituição, só que sem metade da força de um De Punhos Cerrados (de Marco Bellocchio), realizado na mesma época e com o qual é possível enxergar pontos em comuns. Gaviões e Passarinhos tampouco me impressionou, e os trechos de outros filmes seus pelos quais passei os olhos não atiçaram a minha curiosidade.

Vendo Saló a conclusão é a de que Pasolini conseguiu um meio-termo impossível entre Buñuel e os Hanekes e Von Triers de hoje. Ok, o filme não desenvolve teses para comprovar o quanto o ser humano é escroto, mas será que o diretor italiano igualmente não se regozija com a bestialidade dos fascistas da república de Sálo ao apresentar incessantemente um acúmulo de torpezas, torturas sexuais e agressões físicas e morais que beiram o fetichismo? O filme se pretende uma alegoria que sirva como ataque frontal ao fascismo, não hesitando em recorrer a um barbarismo que também era recorrente em diversos naziexploitations da época (em alguns momentos de Saló eu ficava me lembrando do trash Ilsa She Wolf of The SS). Pasolini era um cineasta de muito maior talento, certamente, e mesmo Saló faz pensar um pouco em Ferreri, como no gozo doente do grupo de poderosos ao comer com muito gosto um banquete de fezes que haviam sido servidas aos escravos sexuais.

Não pretendo ficar em cima do muro, mas confesso não saber muito do quanto gostei ou não do filme. O que sei é que ver um filme como o de Pasolini só me faz ter certeza do quanto gosto de uma obra como Noite e Neblina, no qual todas as atrocidades nazi-fascistas estão fora do quadro (os oficiais oprimindo e liquidando suas vítimas), aconteceram distante do nosso olhar, restando à câmera de Alain Resnais filmar as consequências e tirar algum sentido do que ocorreu. É quase tão forte e contundente quanto Saló (ou até mais), e na sua condição de espectro de um totalitarismo nem tão distante de nossa época, é também incomparavelmente trágico e triste – definição essa última que tenho dúvidas se caberia ao filme de Pasolini, visto que dedicado a colecionar cenas bárbaras e cruéis, é mais incômodo e repulsivo do que triste.