Saló ou os 120 Dias de Sodoma (Pier Paolo Pasolini, 1976)

Finalmente assisti Saló ou os 120 Dias de Sodoma. Não foi um filme que corri para ver porque o pouco que conheço de Pasolini nunca foi suficiente para me tornar admirador do cineasta. Geralmente gosto dos seus filmes em teoria, pelo que eles dizem, mas na hora de assisti-los raramente me deixam completamente satisfeitos. Simpatizo com a idéia de um Cristo revoltado e comunista em O Evangelho Segundo São Mateus, mas o filme em si não tem o brilhantismo das obras que Nicholas Ray e Martin Scorsese realizaram sobre o personagem. Da mesma forma que se pode dizer que Teorema é um belo ataque a família como instituição, só que sem metade da força de um De Punhos Cerrados (de Marco Bellocchio), realizado na mesma época e com o qual é possível enxergar pontos em comuns. Gaviões e Passarinhos tampouco me impressionou, e os trechos de outros filmes seus pelos quais passei os olhos não atiçaram a minha curiosidade.

Vendo Saló a conclusão é a de que Pasolini conseguiu um meio-termo impossível entre Buñuel e os Hanekes e Von Triers de hoje. Ok, o filme não desenvolve teses para comprovar o quanto o ser humano é escroto, mas será que o diretor italiano igualmente não se regozija com a bestialidade dos fascistas da república de Sálo ao apresentar incessantemente um acúmulo de torpezas, torturas sexuais e agressões físicas e morais que beiram o fetichismo? O filme se pretende uma alegoria que sirva como ataque frontal ao fascismo, não hesitando em recorrer a um barbarismo que também era recorrente em diversos naziexploitations da época (em alguns momentos de Saló eu ficava me lembrando do trash Ilsa She Wolf of The SS). Pasolini era um cineasta de muito maior talento, certamente, e mesmo Saló faz pensar um pouco em Ferreri, como no gozo doente do grupo de poderosos ao comer com muito gosto um banquete de fezes que haviam sido servidas aos escravos sexuais.

Não pretendo ficar em cima do muro, mas confesso não saber muito do quanto gostei ou não do filme. O que sei é que ver um filme como o de Pasolini só me faz ter certeza do quanto gosto de uma obra como Noite e Neblina, no qual todas as atrocidades nazi-fascistas estão fora do quadro (os oficiais oprimindo e liquidando suas vítimas), aconteceram distante do nosso olhar, restando à câmera de Alain Resnais filmar as consequências e tirar algum sentido do que ocorreu. É quase tão forte e contundente quanto Saló (ou até mais), e na sua condição de espectro de um totalitarismo nem tão distante de nossa época, é também incomparavelmente trágico e triste – definição essa última que tenho dúvidas se caberia ao filme de Pasolini, visto que dedicado a colecionar cenas bárbaras e cruéis, é mais incômodo e repulsivo do que triste.

Anúncios

4 Respostas para “Saló ou os 120 Dias de Sodoma (Pier Paolo Pasolini, 1976)

  1. Esse filme está na minha lista pra assistir faz tempo, mas já rodei em tudo que é site de donwload e não consigo encontrar. E tenho vontade de conferir por conta dos blogueiros que falaram da relação de Pasolini com o Haneke e o Von Trier nos dias de hoje.

    • Eu ainda estou pensando no quanto o filme tem de positivo ou negativo (à parte inegáveis méritos cinematográticos), o que não tem é como permanecer indiferente a ele.

  2. Toda a estrutura deste filme de Pasolini parece agressiva e estranhamente incômoda, sinto curiosidade desde que conferi algumas críticas a respeito. Texto super conclusivo Vlademir!

  3. Emmanuela, quando for assistí-lo, é melhor estar preparada, porque o filme não impõe limites em seus excessos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s