As Safadas (C. Reichenbach/ Inácio Araujo/ Antonio Meliande, 1982)

Filmes em episódios já foram mais freqüentes no cinema brasileiro (e mundial também), um dos mais coesos a ser apontado pode ser essa produção da Boca do Lixo realizada em tempo recorde e com orçamento limitadíssimo (do inicio das filmagens ao lançamento nos cinemas foram apenas três meses). O que mais se ressente foi a cópia bem ruim que tive em mãos, que atrapalhou um pouco e fez com que eu custasse a prestar mais atenção ao primeiro episódio, “A Rainha do Fliper”, do Carlos Reichenbach, que desde já pede uma nova revisão.  Mistura um melodrama sensível com características marginais e esboça elementos que percorrem muito da obra do diretor, especialmente ao se concentrar num personagem feminino com vida difícil e obrigada pelas a se dividir entre uma circunstância e outra. A cena de amor entre os três personagens ao som de Al Green é para se guardar, pode-se dizer que faz par com o menage no final de O Império do Desejo (1980), ao som de Make It Good, dos Beach Boys.

O segundo episódio, “Uma Aula de Sanfona”, é assinado pelo Inácio Araújo (em sua única incursão como cineasta), que parece abrir com uma referência explicita a Janela Indiscreta, com as janelas do prédio se definindo pela luz que as ilumina de dentro, até a câmera escolher uma das janelas do apartamento onde transcorrerá o segmento, um primor de condução na tentativa de relacionamento entre os quatro personagens através de pequenas trapaças e nas soluções visuais para explorar os espaços restritos (incluindo travellings através dos tapetes), o episódio flui admiravelmente tanto em termos de narrativa quanto de imagem. Muito por conta também do trabalho do elenco, especialmente no desprendimento de Sandra Grafiti e do personagem um tanto misterioso de Claudio Mamberti. Pena que o final deixe a desejar, ao menos a resolução não desce muito bem como o restante do episódio (pesquisando depois do filme descobri uma declaração do Carlos Reichenbach dizendo que Inácio teria se inspirado em Naked Kiss de Samuel Fuller para criar o desfecho de sua história). Aliás, aqui tem um texto muito bom do Reichenbach sobre o episódio Uma Aula de Sanfona.

A terceira história, “Belinha, a Virgem”, de Antonio Meliande, a principio parece destoar um pouco, mas fecha o filme com dignidade se entendermos que se trata de uma comédia erótica, no caso a respeito de uma virgem dando golpes em velhos pervertidos, mas sem perder a virgindade, que pretender conservar para entregar ao noivo depois do casamento. Há piadas fracas e momentos frágeis no segmento, que se salva na cena hilária com o padre encarregado de extrair a confissão de seus pecados. A atriz Vanessa Alves, no auge da beleza, carrega o episódio nas costas.

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