Zingu#40

Depois de um longo inverno, a Zingu! retorna com nova edição, tendo como foco o cineasta Francisco Ramalho Jr., com entrevista e críticas dos sete filmes que dirigiu, e um especial sobre futebol no cinema brasileiro. Minhas colaborações foram com textos para Garrincha, Alegria do Povo, Pelé Eterno e Canta, Maria. Além das demais colunas e seções, o destaque é o design novo, por enquanto em versão beta que será ainda modificada (a versão definitiva será em breve lançada). Mas a grande notícia foi o recebimento nessa semana do Prêmio IBAC 2010 com o troféu vencedor na categoria cinema para a Zingu, na qual também disputavam concorrentes de respeito como a Coleção Aplauso e o Coletivo Alumbramento. Sem dúvida um reconhecimento merecido para a publicação que recentemente completou quatro anos de existência.

Top 1964

01. Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha)
02. Gertrud (Carl T. Dreyer)
03. Desejo Profano (Shohei Imamura)
04. Dr. Fantástico (Stanley Kubrick)
05. Os Guarda-Chuvas do Amor (Jacques Demy)
06. A Mulher da Areia (Hiroshi Teshigahara)
07. A Esposa Solitária (Satyajit Ray)
08. O Beijo Amargo (Samuel Fuller)
09. O Esporte Favorito dos Homens (Howard Hawks)
10. Os Cavalos de Fogo (Serguei Paradjanov)

Carlos (Olivier Assayas, 2010)

Carlos, o Chacal foi um dos bichos-papões da minha infância. Eu era pequeno, mas lembro de quando ele foi preso, do estardalhaço com que durante uma semana o Jornal Nacional noticiou a sua captura. A TV o descrevia como um monstro, o bandido mais procurado do mundo. Na época eu nem tinha noção das verdadeiras motivações do terrorista, e diante do filme agora dirigido por Olivier Assayas é possível compreender bem melhor a sua trajetória, mas esse é antes um típico filme de Assayas do que uma cinebiografia convencional disposta a defender ou condenar sua figura central. Carlos se inscreve como um prolongamento dos thrillers realizados pelo diretor francês nessa última década (demonlover e boarding gate), mas na verdade trata-se de sua prequela, apesar de operarem de modo bem diferente. É a ascensão e queda do personagem num mundo imediatamente anterior ao do universo corporativo dos outros dois filmes mencionados, mas já com a fragmentação e os deslocamentos por várias partes do mundo, além da capacidade de transformação, de se adaptar às novas situações, dentro de um mundo que permanece em constante mudança. O personagem tem seu apogeu nos anos setenta/oitenta, mas após a derrocada do muro de Berlim a sua própria queda particular seria apenas questão de tempo, já não havia mais lugar para ele num mundo em que por um lado os árabes não se interessavam mais por ele, e por outro (como brinca um outro personagem) a CIA o enxerga apenas como uma curiosidade histórica. Assayas acredita na sinceridade das convicções do seu personagem, e observa-o com grande curiosidade, porém a câmera do diretor não olha com qualquer condescendência, tampouco o julga para o bem ou para o mal. Fica a escolha de cada espectador encará-lo como um herói na nobre luta contra o imperialismo ou um cego preso a uma ideologia babaca, mas talvez o mais apropriado seja acompanhá-lo pelo senso de espetáculo de suas ações, das fugas e disfarces, trocas de identidades e consequente solidão, além dos atentados pela Europa e no oriente. Ajudam muito a trilha com as canções pós-punk e new wave que traduzem um estado de espírito e ilustram o tempo histórico e as performances formidáveis de Edgar Ramirez (uma grata surpresa reencontrá-lo tempo depois de vê-lo em Domino – Caçadora de Recompensas) e Nora von Waldstätten (cuja figura em cena parece ter sido retirada diretamente dos já citados demonlover ou boarding gate). Trata-se de um filme indicado sobretudo aos fãs de Assayas, mas não só para eles (visto que aqui no Brasil Carlos Reichenbach e Inácio Araújo, por exemplo, elogiaram bastante esse seu mais recente trabalho). Já detratores do diretor francês podem comparar o filme pejorativamente em relação ao Che, de Steven Soderbergh, mas acredito que pelo resultado o de Assayas se impõe mais como uma resposta ao do americano, quase que uma lição de como filmar a vida de um revolucionário internacional, no que parece importar menos a história (o enredo, no que ele pode ter de convencional até) do que a trajetória (a mise en scène) percorrida (digamos que, guardadas as devidas proporções, Carlos está para Che quase da mesma maneira que Amantes Constantes em relação a Os Sonhadores).