Melhores de 2010

Como todo final de ano, a lista com os melhores filmes da temporada, dentre os lançados no circuito de estréias no Brasil durante 2010, e comentários que variam de tamanho para cada um deles. Uma retrospectiva bem pessoal dentre o que foi lançado de melhor no país no decorrer do ano.


20) Tudo Pode Dar Certo (Woody Allen)

Os filmes do diretor há muito não me empolgam, porém não há como negar que Whatever Works é um triunfo (mas sem ambições maiores como as que vez por outra tem passado pela cabeça de Woody Allen), e embora tenha preferência pelos filmes em que o próprio Allen representa o personagem principal, foi um grande acerto Larry David (mais famoso por seus trabalhos na televisão) como o protagonista fracassado de mente brilhante em torno de gente medíocre, um divorciado de humor sarcástico e demolidor, rabugento e hipocondríaco, cheio de fixações mórbidas, raiva contida e aversão ao ser humano que resolve encarar uma aventura amorosa com uma garota, o que se dificultará com o progressivo aparecimento de outros tantos personagens. Lindo.


19) A Caixa (Richard Kelly) / Zumbilândia (Ruben Fleischer)

Empatados, dois bons filmes B dentre os quais teria dificuldade em escolher apenas um (ou podem interpretar como um favor para que o belo filme de Woody Allen não ficasse de fora da lista). Eu não sou o maior fã de Donnie Darko (ao passo que Southland Tales é um filme que merece mais atenção), já A Caixa ganha muito por Kelly trabalhar pela primeira vez com um roteiro adaptado e tirar de uma história do mestre Richard Matheson o material para um conto de terror que remete não apenas à série de TV Twilight zone quanto a uma das obsessões de seu jovem diretor, o cinema de Robert Aldrich (não é difícil lembrar da caixa de A Morte num Beijo em relação a de The Box). Já Zumbilândia não deixa de ser uma atualização de uma vertente de cinema Hawksiano-Carpenteriano em forma de filme juvenil de zumbi. A noção de camaradagem de um pequeno grupo em torno de um trabalho em equipe, e a mulher como acontecimento indesejado no grupo, na medida em que desorganiza uma ordem masculina construída em torno de uma ação (contando inclusive com Woody Harrelson como um velho caubói em uma versão madura e menos simpática do personagem de Kurt Russell em Os Aventureiros do Bairro Proibido). Evidentemente bem menor que os modelos que parecem lhe preceder, mas muito divertido.


18) Procurando Elly (Asghar Farhadi)

Farhadi não é Kiarostami (longe disso), mas tampouco segue a linha dos que tanto se beneficiaram da época em que o cinema iraniano esteve em moda e criou-se o clichê do que seria a cinematografia do seu país, como se esta fosse tão complacente como foi tratada por grande parte do público (tanto defensores quanto detratores) diante de apenas alguns títulos jogados aos holofotes. Procurando Elly possui o atributo da vitalidade, não somente pelo seu ritmo ágil, mas por uma força vital na dramaturgia, pelo vigor da encenação. O paradeiro da personagem interessa bem menos do que sua figura misteriosa, e das consequências que o conhecimento (ou a falta de) do seu passado traz aos demais.


17) Ilha do Medo (Martin Scorsese)

Scorsese é um desses casos que como Tarantino (citado mais adiante) despertam reações extremas tanto de quem o supervaloriza em demasia apenas por seus nomes encabeçarem os créditos quanto os que lançam críticas pesadas por cobrarem algo à altura de todo hype descontrolado consequênte do seu nome estar acima do próprio filme. Dito isso, Ilha do Medo é o filme do seu diretor que mais me impressionou em dez ou quinze anos, o final é um tanto tolo e frustrante (mas óbvio e coerente com o que se desenhava até ali), mas acompanhar aquela jornada e andamento todo não deixou de ser uma experiência gratificante que poucos outros filmes recentes proporcionaram.


16) Napoli, Napoli, Napoli (Abel Ferrara)

Eis um filme de um exilado, de um filho indesejado do cinema americano há cerca de uma década filmando com capital estrangeiro. Napoli, Napoli, Napoli é uma produção de encomenda e decididamente um filme menor na carreira do seu realizador, mas Ferrara é Ferrara e encontramos aqui um mesmo desconforto e desespero de mundo instalado num contexto específico como costumamos encontrar na maior parte de sua obra. Aqui o mal já fez o seu estrago e parece não haver saída nem explicação. Ferrara entrega o documentário que lhe pediram, mas pinta e borda com sua câmera acrescentando um bocado do que se espera de um filme com a sua assinatura.


15) O Ultimo Mestre do Ar (M. Night Shyamalan)

O filme mais negligenciado do ano. Não que seja um trabalho isento de problemas, mas não querer enxergar o que o filme tem de bom é para quem acha que o diretor deveria passar a vida inteira fazendo quinhentos O Sexto Sentido (que é um dos seus filmes menos bons, diga-se de passagem, visto que quase tudo que ele fez depois é melhor). The Last Airbander vai na contramão das firulas e do ritmo apressado dos blockbusters, com mais meditação, mistério do mundo e um tom solene, além de descrever e revelar todo um mundo (de quantas outras fantasias hollywoodianas podemos dizer o mesmo?). Shyamalan prossegue notável em desafiar e nos desconcertar (o que para muitos pode ser frustrante) diante das convenções do cinema de gênero.


14) Ponyo – Uma amizade que veio do Mar (Hayao Miyazaki)

Um dos belos trabalhos de animação lançados nos nossos cinemas nesse ano, e mais um triunfo da imaginação criadora sobre os límites do real, vindo de um mestre (o maior, entre os que estão vivos, a se dedicar ao gênero) que permanece um artista privilegiado cujo trabalho preza não apenas as crianças em geral, mas também os adultos de mentes exarcebadas e livres, que não se importam em experimentar ver o mundo sob os olhos de uma criança.



13) Machete (Robert Rodriguez e Ethan Maniquis)

Roberto Rodriguez nem sempre é um diretor em quem se pode confiar, mas o seu cinema se realiza mais plenamente quando parece transportar algo dos faroestes spaghetty para o México que conhece tão bem, fundindo-o com um olhar bem exploitation, da mesma forma que concilia tradição com mundo moderno. Isso já se dava na trilogia dos Mariachis, e novamente ele acerta em cheio em Machete, que é tanto uma extensão do projeto Grindhouse quanto dos seus filmes da citada trilogia. Talvez nunca antes o diretor concretizara com tanta eficácia o seu talento quanto com esse seu mais recente trabalho.

12) O Escritor Fantasma (Roman Polanski)

Polanski gosta de ferrar com os protagonistas de muitos dos seus filmes (vemos o próprio diretor na pele deles), e estes definitivamente são os seus melhores. O Escritor Fantasma recupera em parte os bons tempos de Chinatown, com uma trama de conspirações, mistério, segredos escondidos e desfecho trágico e inesperado, ainda que sem a atmosfera e estética noir do clássico de 74, tendendo mais aos toques hitchcockianos que vez por outra se manifestam na obra do polonês (esse último é dos mais bem-sucedidos do cineasta nessa linha, quase um encontro dos dois thrillers anteriores do cineasta, Chinatown e Frantic).


11) Toy Story 3 (Lee Unkrich)

Eu nunca fui grande admirador dos dois primeiros Toy Story (que são bem legais), mas esse terceiro chega a ser sublime (ou perto disso) e não há como passar incólume por ele. A Pixar nasceu com o primeiro Toy story e atinge o seu apogeu em qualidade com esse terceiro de sua série mais famosa. Um desenho de um brilhantismo que chega a ser quase insano, além de muito criativo e engraçado. É filme de prisão, desamparo, fuga, isolamento e solidão. Mas sobretudo um belo trabalho sobre a passagem do tempo e as transformações da vida.


10) À Prova de Morte (Quentin Tarantino)

Tarantino é um ótimo cineasta, mas creio que é daqueles que, exageradamente, costuma ser colocado num pedestal acima do bem e do mal, e acima de todos os outros diretores da época dele, o que sempre vai gerar comparações e injustiças, aclamações exageradas de alguns e reações contrárias nem sempre justas (mas não raro pertinentes) de outros. Á Prova de Morte é dos mais deliciosos de seus filmes, com uma primeira metade excelente (a longa sequência do bar é, fácil, um dos grandes momentos do cinema contemporâneo), mas depois do acidente que divide a narrativa, é preciso aceitar que o filme possui um recomeço, crescendo dali em diante até mais um belo clímax que é a perseguição na auto-estrada e todo o final.


09) Mother – A Busca Pela Verdade (Bong Joon-ho)

Filme visto e revisto, e que não deve nada aos dois anteriores do seu cineasta (Memórias de um Assassino e O Hospedeiro).Dividido em duas partes, a primeira reflete muito do estado psicológico do protagonista, sua caótica confusão mental e os desvios de sua percepção trôpega do mundo, o que torna ambígua a sua relação com o crime que ocupa o núcleo central da narrativa. A segunda é o pesadelo e calvário de uma mãe e seu périplo, e que encarna a disposição de ir até o fim nessa busca pelo esclarecimento da verdade. Nem tanto a luta do indivíduo contra o sistema, mas sim de pura e simplesmente narrar uma história de obstinação de uma anti-heroína agoniada diante de um mundo duro e insensível, mas sempre sublinhando o que existe de patético em toda tragédia e melodrama, uma forma um pouco estranha e pujante de misturar densidade psicológica com caricatura vulgar. Ao final, descobrimos que uma verdadeira mãe chora não apenas pelo seu, mas por todos os filhos do mundo.

08) Invictus (Clint Eastwood)

Invictus não foi dos mais aclamados trabalhos de Clint, muitoporque ao contrário de seus filmes mais recentes, não termina numa grande tragédia, mas começa a partir do resquício de uma. O passado de lutas e sacrifício de um povo aparece mais como um fantasma que deve ser superado, um ponto de partida para a reconstrução de uma nova era. A História assombra a película do inicio ao fim. Um filme que chega depois da catástrofe. O estrago já aconteceu, cabe ao cineasta chegar depois e filmar os destroços e a reconstrução de uma nação em frangalhos, porém em processo de se reerguer o mais ligeiro possível, em torno de seu grande líder hábil em evitar que se reforce o ciclo de medo que sempre existiu em seu país, esforçando-se ao máximo para romper esse circulo vicioso de ódio e rancor. Invictus é também sobre esporte, no entanto Clint não faz com que ele se torne o interesse principal do filme, mas sim um dispositivo elegantemente disfarçado nos detalhes da dramaturgia para alcançar a sua devida conotação política. Ao final, percebemos que, da mesma forma que as mais recentes e festejadas obras de Clint, Invictus é sobre personagens dispostos a morrer ou se sacrificar por uma causa ou crença inabalável, e então reconhecemos que se trata de mais um legítimo trabalho do seu cineasta. Pra completar, nunca esquecerei de um comentário de um amigo meu, crítico, que sugeriu que Invictus pode ser o “A Mocidade de Lincoln by Clint Eastwood”, e embora saibamos que nada possa se comparar ao filme de Ford (muito acima de qualquer coisa filmada em nossa época), esse foi o melhor elogio que sempre lembrarei em relação à Invictus.


07) A Rede Social (David Fincher)

Muita bobagem se falou a respeito de The Social Network, tanto por quem gostou quanto pelos que detestaram o filme. Diversas comparações despropositadas foram levantadas a respeito, e há os que não conseguem desvencilhar do cineasta a imagem de moderninho de plantão como muitos o enxergam faz dez ou quinze anos, mas ai o problema é dos olhos de quem vê. A Rede Social sobreviverá muito bem acima dos seus elogios exagerados ou críticas infundadas. Fincher observa nossa época com certa distância e alguma ironia e faz a crônica de uma geração e desses tempos velozes e superficiais. O isolamento, a misoginia, a solidão. O cineasta depura o seu estilo e controle da narrativa-encenação dando preferência menos às partes isoladas do que em relação a um todo bastante coeso, sem extrapolar charme, ritmo, brilho ou tensões. É Fincher mais disciplinado, e também mais maduro.


06) Minha Terra, África (Claire Denis)

White Material melhor se realiza quando se conecta diretamente no espectador a partir do cinema sensorial e de fluxos da realizadora. É com ele que o filme se completa e conseguimos acompanhar com interesse as questões sociais que servem como pano de fundo político marcado pelas tensões étnicas que terminam em morte ou enlouquecimento no cenário sangrento e pós-colonial de uma guerra civil num país africano nunca identificado. Sequências memoráveis como a das crianças órfãs armadas saindo da floresta e a trilha da banda de rock Tindersticks (parceiros constantes de Claire Denis) reforçam White Material como um filme a não se perder de vista.


05) Guerra ao Terror (Kathryn Bigelow)

A força de The Hurt Locker em momento algum é fetichizante em relação à guerra (o que explica muitas das reações negativas ao filme), até por não ser sobre a guerra em si, mas sobre o acumulo de trabalho perturbando o emocional dos envolvidos e conferindo cada vez mais a dimensão do horror em que se transformou o teatro de operações no Iraque. O filme ganha muito em tornar os personagens como seres rarefeitos, o tempo todo os soldados com seus uniformes e capacetes e Bigelow se preocupando mais em mostrar como se portam na sua rotina de trabalho sem individualizá-los, numa sucessão de cenas que por vezes desnorteia o espectador, colocando-o sensorialmente no meio das operações nesse campo de guerra. Durante um bom tempo, é difícil discernir os personagens um do outro (no começo mal se sabe quem é quem na guerra), e ao longo da projeção é que a individualidade de cada um vai tomando forma aos nossos olhos, tanto que numa das raras ocasiões em que o filme sai do seu foco principal é num frustrado retorno de um dos soldados que não se adaptando à vida civil, trata de voltar correndo pra guerra. É a guerra como um vício, conseqüência de uma eterna repetição, de um não sair do mesmo lugar, pois para cada combatente trata-se de uma aventura que não leva a lugar algum, em que nada é transformado pelos acontecimentos, apenas se retorna continuamente ao ponto de partida. Não deve haver inferno pior que esse.


04) Ervas Daninhas (Alain Resnais)

Ervas Daninhas é o único filme dessa lista sobre o qual nunca escrevi palavra alguma, mesmo tendo visto duas vezes no primeiro semestre. Não teria muito a dizer, não somente por tê-lo assistido há um bom tempo, mas sobretudo porque o filme de Resnais é daqueles que dá vontade apenas de ver e rever, pensar e retornar a ele e perder-se em sua encenação, sem necessariamente encaixá-lo em definições ou descrevê-lo em palavras. Não é tão genial ou importante quanto o imediatamente anterior Medos Privados em Lugares Públicos, mas Resnais é daqueles que se repete sempre (ele normalmente retoma procedimentos conhecidos por quem acompanha a sua obra), mas nunca é igual ao que fez antes. Ervas Daninhas é um filme incomum com uma história trivial, no fundo, como gostaríamos que fossem todos os filmes do mundo.


03) Vincere (Marco Bellocchio)

Vincere é sobre como a História está sempre a nos pregar uma trapaça, no sentido de que, muitas vezes, é a partir de figuras idealistas que surgem os seres mais monstruosos. Um estudo acerca do surgimento e transformação de um homem em mito − numa alteração não apenas psicológica, mas sobretudo física (o que não se refere a um simples e natural envelhecimento, e sim uma mutação que vai tornando a sua imagem mais ameaçadora e monstruosa). Com o tempo, Vincere acaba se tornando um filme sobre a loucura, o abandono e o desespero, assumindo o ponto de vista de Ida Dalser, que adorou o futuro ditador e a quem entregou todo o seu patrimônio, e que por sua vez a anulou como se ela nunca tivesse existido, como um fantasma (ou menos que um fantasma, como a própria Ida se define). O filme, na verdade, é sobre essa mulher, que venera e ao mesmo tempo odeia o ditador italiano, acompanhando a sua trajetória desde o princípio, até o cerceamento a que mãe e filho são submetidos. É a força da História esmagando a pequenez do indivíduo, em um filme movido pelas pulsões corporais mais brutas dos seus personagens. E também um formidável exercício de mise en scène.

02) Sempre Bela (Manoel de Oliveira)

Muitos grandes filmes do passado mereciam ser retomados com a mesma dignidade com que Oliveira homenageou A Bela da Tarde trinta e oito anos depois, mas se no filme de Buñuel a figura de Catherine Deneuve (aqui substituída por Bulle Ogiers, também com grande classe) era o núcleo central de todo o filme, esse mais recente toma o ponto de vista do personagem masculino Husson (o grande Michel Piccoli, uma figura um tanto a parte do filme de 67, mas crucial no final das contas), e por conseguinte, assumindo a própria perspectiva do espectador, pois o que era Husson senão mais um espectador tomado do fascínio e ávido pelo mistério e encanto perdido daquela mulher impossível? Belle Toujours é de uma magnitude da qual apenas os grandes mestres são capazes, e é um momento inesquecível tanto para quem trabalhou nele atrás das câmeras quanto para quem pôde admirar sua incrível singeleza.


01) Filme Socialismo (Jean-Luc Godard)

Em termos de imagens propriamente ditas, não deve haver filme melhor em 2010. O diretor francês filma como um pintor para expressar seu turbilhão de ritmos e a articulação – de suas idéias, sejam elas abstratas ou concretas – entre os planos que decupam no tempo e na geografia do espaço um local, seja ele um transatlântico, na casa de família, no posto de gasolina ou na estrada, onde transcorrem os três movimentos de Film Socialisme, ou ainda o clímax final com imagens de arquivo (telejornais, filmes velhos, documentos históricos ou um jogo de futebol). Falar em trama em Godard é inútil e talvez não ajam sequer personagens (apenas figuras que se movimentam no quadro), a história se faz diante de nossos olhos enquanto o filme transcorre, e o cineasta manipula imagens como discurso e expõe suas questões e teorias através delas por um fluxo torrencial de cores e sons, jogando com nossos sentidos e capacidade de percepção, que graças ao trabalho sensível que o cineasta exerce sobre o seu material traduzem um estado de calmo e ao mesmo tempo agitado desespero em meio à matéria do mundo. Film Socialisme é nada menos que uma esfinge, mas desde que se aceite as regras do jogo pode se mergulhar nele e o filme se converter numa estimulante aventura cinematográfica, e se trata verdadeiramente de um cinema do futuro, como devem ser os grandes filmes de qualquer tempo.

Anúncios

Não deve ser preciso dizê-lo: Aniki-Bobó é um clássico da filmografia portuguesa, e o filme de Oliveira de que mesmo os alérgicos dizem gostar. A sua limpidez “naturalista” ajuda, a impressão de espontaneidade do grupo de crianças que Oliveira dirigiu também, e o magnífico uso dos cenários naturais da zona de Ribeira atribuem-lhe um alcance que se tornou – também- “documental”. Pese tudo isso, Aniki é a primeira grande história de paixões e obsessões, ciúmes e traições, que Oliveira filmou.

Que ele tenha transposto para aquele grupo de crianças uma tão poderosa expressão de emoções “adultas” sem as violentar, sem lhes quebrar a aura de inocência, sem deixar de ter, em suma, um grupo de crianças, eis um das coisas mais extraordinárias de Aniki-Bóbó – seguramente um dos grandes filmes alguma vez feitos de entre os que olham a infância, mas mais ainda olham “através” da infância sem a perderem no processo. E eis portanto a história de como Carlitos entra em contacto com o lado mais negro dos seus impulsos (o crime, a mentira, a violência) por amor de Teresinha, pura história de iniciação contada como se fosse uma fábula, um conto infantil.

Tem que se registar isto: se Aniki-Bóbó conta as desventuras de um garoto que quer oferecer à namorada uma boneca que viu na montra duma loja, o último Oliveira comercialmente estreado, Singularidades de uma Rapariga Loira (loira como a Teresinha), conta as desventuras de outro “garoto” que se quer oferecer a si próprio, como namorada, a boneca que viu na montra do prédio em frente. Maneira de dizer que Aniki-Bóbó é, como o Douro, sumamente oliveiriano.

Luis Miguel Oliveira

Blake Edwards (1922-2010)

Justas homenagens a Blake Edwards por todos os lados. Possuia um talento absurdo para a comédia, e era mestre também no drama, no romance e em outros gêneros. Deixo o link pro texto que escrevi sobre o cineasta para o seu perfil no Cineplayers.

E aproveito para linkar a crítica de O Miado do Gato, de Peter Bogdanovich, que foi publicado nessa semana dando prosseguimento aos textos dedicados aos filmes do cineasta que de uns tempos pra cá vem saindo no site.

“Um ou outro cineasta sabe filmar, e embora os brasileiros gostem muito de cinema, o cinema não gosta muito de brasileiros. O cineasta brasileiro pode ser hoje comparado a uma toupeira humana, insistindo em não ser solidário às grandes causas do cinema, que é o próprio cinema. O homem brasileiro, quando pretende ser altivo, faz questão de ser pedante, e uma coisa não tem nada a ver com a outra.” (Rogério Sganzerla)