Um Lugar Qualquer (Sofia Coppola, 2010)

Sofia Coppola é uma cineasta que passa a impressão de cuja carreira diminuir de qualidade filme a filme (salvo Maria Antonieta, que até hoje não assisti). Os reais prazeres de Somewhere são os de sua superfície, a fluência de suas belas imagens, a trilha, o trabalho com os atores etc. Cenas como as do Rock Band são exemplos disso, e o melhor do filme é acompanhar o vácuo em torno do seu personagem principal. Mas em suas qualidades é que Somewhere apresenta também suas limitações. A falta de um material realmente interessante que permitisse ao filme tomar um vôo livre. O que nos resta é acompanhar o “tédio” que deve ser viver à beira de piscinas, rodeado de belas garotas, carros potentes, quartos de hotéis e ambientes de luxo, tudo blasé demais. É o esforço de transformar o vazio em um sentimento de melancolia, de nos convencer que o excesso de riquezas pode não ser nada. Coppola quer desmascarar o que seria uma existência longe de qualquer aspecto do que seja a “vida real”, nos fazer acreditar que todo luxo do personagem o aprisiona em uma bolha e que isso é muito ruim. Mas ela própria não filma nada além desse luxo todo e com inegável deleite pela maioria desses artefatos materiais que circundam o protagonista. Coppola corre o risco de transformar seu cinema, o seu estilo, em uma grife, que nos faz saber de antemão o que esperar de seus filmes (e com um público cativo satisfeito sem exigir muito além disso), algo que pode ocorrer inclusive com os melhores autores, mas com a diferença de que Somewhere se encerra sem que ocorra avanço algum na filmografia de sua realizadora. Somewhere apenas se permite sair da própria bolha que é o próprio filme em sua cena final com o surradíssimo clichê do personagem andando na estrada rumo ao mundo e em direção ao desconhecido, algo largamente já utilizado até a exaustão. Foi quando lembrei de outro filme que se encerra da mesma maneira, o brasileiro Os Famosos e Os Duendes da Morte, e se há um abismo que esteticamente separa o talento de Sofia com a inexperiência de Esmir Filho, conceitualmente as duas obras não estão muito distantes entre si, cada uma sufocadas pela redoma que criaram em torno de si e seus personagens. Somewhere é um belo filme de se ver e acompanhar, com toda sua sofisticação visual e narrativa, mas no fundo uma experiência um tanto vazia que seu desfecho apenas corrobora.

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Bravura Indômita (Coens, 2010)

Westerns são o gênero cinematográfico por excelência, que fazem parte não apenas de um determinado tempo da crônica da formação norte-americana, mas sobretudo à um período específico do cinema que não mais existe. Se Os Imperdoáveis foi o testamento definitivo do gênero, fazer um grande faroeste depois dele tornou-se quase impossível, a unica exceção por conta de Dead Man, que problematizava o gênero apresentando-o como uma espécie de fantasma, ao mesmo tempo existindo em suspenso e se movendo acima de gêneros ou qualquer tempo. Os Coens não problematizam nem colocam nada em crise, tampouco realizam algo que possamos chamar de um legítimo western, utilizando o contexto e ambiente do Oeste como decoração e ornamento para True Grit (como se estivessem filmando mais um filme de época do que um faroeste propriamente dito), com um senso de inautenticidade que faz com que os atores mais pareçam fantasiados do que genuinamente ligados aos seus papéis e à època em que o enredo transcorre. E uma insignificância estética que o aproxima de algum telefime ambientado no Velho Oeste, além de explorar um fetichismo em cima da figura encarnada por Jeff Bridges (que é só maquiagem e grunhidos) parecida com o que Aronovsky faz com Mickey Rourke em O Lutador. True Grit é uma extensão ainda mais mecânica e menos interessante de Onde os Fracos Não Tem Vez. Suas intenções são sérias, mas o resultado é perto do pastiche ou da caricatura.