Cisne Negro (Darren Aronofsky, 2010)

Quando estreou nos cinemas americano tinha grande curiosidade por Black Swan: no papel parecia uma idéia excelente. Aronofsky vinha de um filme anterior, The Wrestler, que na época de lançamento me pareceu apenas “bom” e o seu melhor até ali, onde abandonava as afetações de seus trabalhos anteriores em troca de um feijão com arroz da câmera deixando que o roteiro se impusesse naturalmente, apostando tudo na performance de Mickey Rourke (discutível, mas isso não vem ao caso), que arrebatava a atenção de quem comprou a proposta do filme. O cineasta sucede esse filme com um outro que me parece bem mais interessante (e até melhor, em vários momentos), onde repete o procedimento de apostar quase tudo no desespero de um ator/personagem, mas também retoma alguns dos seus piores vícios de sempre. Black Swan é o filme que eu teria adorado caso o tivesse visto dez anos atrás. Ao vê-lo agora, detestei a personagem de Natalie Portman, e a empatia com ela é fundamental para gostar do filme. Ela é o filme. Só que está sempre à beira da histeria e do desequilíbrio, uma composição muita chata para um personagem inócuo que se quer denso por toda a loucura que o envolve.

O que Aronofsky faz é acompanhá-la de perto com a câmera na mão, utilizando cacoetes nada inovadores ou experimentais (a não ser para quem esteja habituado apenas com blockbusters) para contar a sua história. Algumas sequências podem ser consideradas belíssimas, no entanto são intercaladas por situações bobas, até mesmo risíveis e absurdas (eu cai na gargalhada em momentos como o do velhinho do metrô fazendo sinal indecente pra Natalie, quando a intenção de Aronofsky seria a de fazer algo tenso). Quem levou mesmo a sério tudo aquilo que está no filme não me surpreende que o tenha adorado, mas quase todo ele me parece friamente calculado, e quando foge disso é para descambar nos excessos da falta de sutilezas. A grande diferença entre Cisne Negro e A Origem é que quanto ao filme do Nolan até mesmo seus fãs mais radicais não podem deixar de reconhecer que ele é, no fundo, um blockbuster (o que não é um dos problemas do filme, visto que vários blockbusters são ótimos), enquanto que o novo de Aronofsky por não se encaixar na definição passa, na visão de alguns, por filme “artístico” e até “experimental” (!).

Cisne Negro é mais um brinquedo mecânico que mais se esforça em ser grande arte, do que de fato o seja. Uma penca de filmes mais antigos foram invocados recentemente a propósito de Black Swan, um deles foi Showgirls, pelo fato de ambos possuírem disputas entre dançarinas rivais. As semelhanças terminam por ai, e o mínimo que se pode dizer é que o mesmo público/crítica que destruiu Showgirls quinze anos atrás é o que agora consagra Cisne Negro. Talvez o filme não seja tão terrível, mas a superestimação em torno dele o é.

“Diante de um objeto artístico – precário ou não – o mínimo que se exige de alguém que tem a insana coragem de emitir um ponto de vista crítico é… que esse ponto de vista seja crítico. Que se procure entender o que alguém realizou e, dentro dos parâmetros desse entendimento, perceber o que há de bom ou malsucedido na empreitada.

Inevitavelmente erraremos, no mais. Inevitalmente voltaremos atrás sobre alguns julgamentos, anos depois. Ainda assim, esse é o único solo plausível que se pode pisar, nessa matéria.

Caso contrário, vamos confundir a propaganda do filme com o filme, faremos mera contrapropaganda, cometeremos diatribes rancorosas, cheias de palavras ocas (…), já que aplicados a qualquer contexto imaginados, não apoiados em qualquer fato.”

Inácio Araujo.

Extraido de Cinema de boca em boca: escritos sobre cinema (org. e pesquisa: Juliano Tosi). Coleção Aplauso, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2010. Páginas: 340-341