Laranja Mecânica (Stanley Kubrick, 1971)

Revisão de Laranja Mecânica depois de algum tempo sem assisti-lo, agora em Blu-Ray. É sempre interessante retornar ao filme, ainda mais depois de adulto, permitindo que se confirme ou desminta velhas perspectivas, além de que podem acrescentar outras mais, ainda que se trate de uma obra já devidamente (e um tanto exagerado) celebrada. Seus defeitos se tornam mais evidentes: um certo fetichismo e uma afetação por vezes pesada ─ suas qualidades, entretanto, são sempre ainda mais reforçadas a cada revisitada. Se bobear é o filme juvenil mais genial da história do cinema ─ talvez nem tão genial, mas bem juvenil, o que não é demérito algum, pelo contrário, é de onde decorre grande parte de suas virtudes.

É preciso ainda encarar o filme de Kubrick como uma obra intelectual. Não erudito, nem difícil ou hermético; mas sobretudo um filme político. Mais que o seu personagem, Laranja Mecânica é anárquico por excelência: o Estado só está interessado no tratamento para a cura da criminalidade por pura conveniência, para poder utilizar as penitenciárias para trancafiar presos políticos; a oposição, só toma partido do protagonista (quando desamparado) como arma para combater o governo, levando à tentativa de suicídio do rapaz, uma vez que necessário.

O próprio Alex DeLarge é um demoniozinho anárquico, invadindo casas alheias e lares ricos, esbaldando-se na destruição e violação de objetos tipicamente burgueses. A derrocada da estante de livros na cena do estupro no começo é um chute no saco dos intelectuais. Uma das melhores cenas do filme é o jovem lendo a Bíblia no presídio, e em devaneios como o soldado que flagela Cristo na crucificação, degola inimigos nas batalhas e se satisfaz com as criadas da esposa. Ali o filme nos mostra que a sua redenção é impossível de ser alcançada, e o próprio personagem tem a sua via-crúcis particular logo após sair da prisão, que é quando o filme se torna bem mais interessante (por mais divertido que possam ser os seus primeiros quarenta minutos). É o circulo se fechando em torno do protagonista, pois a sua narrativa é circular, com o indivíduo marcado pelo acúmulo de experiências pessoais e transformado num boneco de pano e reduzido de algoz para vítima, mas depois voltando ao ponto de origem, igual do jeito que começou: o filme termina com Alex curado, totalmente criminoso como antes, mas agora amparado e legitimado pelo Estado, comendo na boquinha pelas mãos do Primeiro-Ministro, disposto a lhe oferecer todas as regalias. Os próprios ex-companheiros de Alex (que o traíram no começo) se converteram em policiais, o que parece nos afirmar que quase todo deliquente pode virar autoridade no final.

É uma visão de mundo bastante negativa, por trás de um tratamento todo irônico, e se é uma antevisão da ultraviolência, o filme tem mais a ver com os nossos tempos do que com um futuro distante. A própria concepção cenográfica é mais retrô do que futurista, vale dizer (o que leva a equívocos de interpretações de que o filme teria envelhecido em seu décor, quando na verdade as intenções de Kubrick era se referir às barbáries e a política do próprio século XX).

O único entre os lados formados pelos personagens em Laranja Mecânica que parece ter razão é o Capelão que acompanha DeLarge na prisão, não porque Kubrick defenda a Igreja, mas porque acredita na sinceridade das palavras do sacerdote, quando este defende o direito ao livre-arbítrio ou fala que a bondade só pode vir de dentro pra fora, e não imposta de fora pra dentro.

É um dos filmes mais óbvios de Stanley Kubrick, onde as suas idéias estão mais escancaradas, porém muitas delas passam despercebidas por causa de efeitos mais fáceis provocados por sua superfície. Deveria ser encarado pelo que é, despido do olhar em torno da aura que o envolve, ou das idolatrias ou polêmicas imbecis que costuma suscitar.

Vale lembrar de algumas das influências cinematográficas que ajudaram Kubrick a compor o seu filme. Tem o Funeral Parade of Roses(1969), claro, um filme japonês underground que não é lá essas coisas, mas bem interessante, e do qual o americano copiou algumas (poucas) cenas praticamente inteiras, inclusive no que se refere ao uso da música. Ainda sobre a trilha sonora, os primeiros filmes de Ken Russell certamente também serviram de inspiração, e tem o …If (1968), do qual tirou Malcom McDowell e parte de sua anarquia juvenil e satírica, sendo que o de Lindsay Anderson, por sua vez, se inspirava no clássico Zéro de Conduta (1933), de Jean Vigo, também radical e com direito a nu frontal, humor escatológico e avançado para a sua época, blasfêmias e obsessões com corpos. O filme de Kubrick é uma versão ainda mais estilizada e pré-punk de tudo isso.

Eu que não sou louco de desprezar um filme desses. E agora é aguardar pelo lançamento de Barry Lyndon em Blu-Ray.

Anúncios

9 Respostas para “Laranja Mecânica (Stanley Kubrick, 1971)

  1. Os cenários da fase inicial do filme me impressionam muito, o uso das cores, os revestimentos inusitados e o mobiliário excêntrico, fiquei maravilhado com a exuberância criativa quando vi pela primeira vez

  2. É um filme fácil de fascinar, mas gosto mais da segunda metade, os primeiros 40 minutos apesar de muito divertido existem para que o restante do filme, de fato, aconteça.

  3. Tinha algum tempo que não o assistia e confesso que após a última revisão fiquei um pouco decepcionado,sei lá,não via tamanha genialidade se comparado quando o tinha assistido nas primeiras vezes,é um grande filme sim,porém Kubrick fez melhores…,Barry Lyndon por exemplo,esse sim,já vi trocentas vezes e cada vez o acho mais inpecável.

  4. entendo essa mudança de percepção, rafael. assisti-lo depois de velho é diferente de quando novo. Hoje em dia procuro vê-lo além da superficie, como uma obra conceitual. É mais ou menos como Piranha, o original de Joe Dante… muitos podem vê-lo apenas pela superficie, como um filminho divertido e jocoso, uma paródia de Tubarão, mas encará-lo apenas dessa maneira é reduzi-lo a uma condição trash (que ele não é) e ignorar o que o filme tem de mais importante, um desespero de mundo diante da civilização em colapso (Laranja Mecânica também tem disso, como o texto do Loucerlles sugere), em suma, uma obra séria, que dentre os filmes de terror da década de setenta possivelmente só tem equivalente em O Exército do Exterminio do Romero (outro filme subestimado).

    Do Kubrick coloco Barry Lyndon e Laranja Mecânica dentre os preferidos, num top 5 junto com 2001, Dr. Fantástico e De Olhos Bem Fechados (com O Grande Golpe, Glória Feita de Sangue e O iluminado correndo por fora, bem perto).

  5. Enquanto Kubrick diz que “…Estava estupefato, pois não tinha nada a ver com o estilo satírico do livro, e penso que foi o editor quem convenceu Burgess a terminar o livro com uma nota de esperança ou coisa assim.”, Anthony Burgess diz exatamente o contrário, afirmando que “… Se rendeu aos primeiros editores americanos porque precisava do dinheiro, embora soubesse que eles estavam desviando a história dentro de uma fábula sensacionalista ao cortarem o crucial capítulo final”.

    Mas o melhor é que, nas duas vias, o impacto é enorme – ainda que eu prefira, no final das contas, a versão definitiva do livro, quando Alex percebe, nas palavras do autor, “que a energia humana é melhor expandida na criação do que na destruição.” Sobre a primeira metade do filme, arrisco afirmar que ela está entre aquelas dez que despertam interesse pelo cinema quando jovem (eu devo ter visto com 14 anos, e foi mesmo um marco na minha vida).

  6. Eu não li o romance, mas me parece um final edificante demais e forçosamente positivo, enquanto que no do Kubrick o desfecho corrobora o filme inteiro com uma dimensão apocalíptica e trágica. Ainda que o do livro possa ser encarado como uma ponta de esperança naquela distopia toda, não é lá muito convincente levando em conta a sua trajetória toda (pelo menos comoe stá no filme).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s