Piranha 3D (Alexandre Aja, 2010)

Um dos filmes mais mal compreendidos do ano passado, inclusive muita gente o elogiou pelos motivos errados (coisas do tipo “lixo ótimo” ou “é merda mas é bom” só fazem dar a razão aos detratores). Com exceção de um ou dois momentos, o filme não tem nada de trash, na verdade ele transporta para o século XXI a estética exploitation dos anos 70, e abraça justamente o que, de acordo com o bom gosto institucionalizado da visão de cinema do público contemporâneo, deveria se evitar por se considerado deficiências de um filme, quando na verdade é a razão de ser em qualquer exploitation. Piranha 3D não aspira ser um filme bem feito, de expor uma suposta excelência do roteiro e das interpretações, como se estas virtudes por si só garantissem um produto de qualidade, quando muitas vezes resultam mesmo é em filmes quadradinhos e não raro esquemáticos, e que geralmente não levam a lugar nenhum. O filme de Aja não chega aos pés do original de Joe Dante de 1978, mas é tão divertido e delicioso quanto, porém está fadado à incompreensções parecidas ao ser reduzido equivocamente a uma condição trash. O original (que em alguns aspectos lembrava uma obra-prima como O Exército do Exterminio) estava mais para Romero que para Spielberg, o que foi suficiente para ser relativamente desprezado desde então (lembrando que o próprio Romero sempre sofreu muitas dessas mesmas incompreensões). Mas Piranha 3D é irmão mesmo de outro grande exploitation moderno realizado no ano passado: Machete, de Roberto Rodriguez, com toda a sua violência explícita, nudez, amoralidade, perversão e transgressão para simplesmente divertir e nos lançar numa experiência visceral, e que pode ser mais recompensadora que um cinema que se quer perfeitinho e bem-acabado mas muitas vezes resulta natimorto.

Zingu#44

A Zingu ficou um bom tempo parada no ano passado, mas no final de 2010 retornou sob o comando do Adilson Marcelino (do blog Minha Insensatez), e as edições voltaram a ser mensais. Acaba de sair a melhor delas nessa nova fase, uma edição histórica com dossiê Inácio Araújo, com uma extensa entrevista imperdível que é praticamente quase um panorama do cinema brasileiro mas últimas quatro décadas, genial mesmo, inclusive quando ele conta que Carlão Reichenbach quando novo queria dar porrada no Rubens Ewald Filho. Mas não apenas por isso, a entrevista termina com ele dando um depoimento importante sobre o contexto brasileiro em mátéria de cinema e crítica. Há também textos para a maioria dos filmes em que ele trabalhou (como assistente, montador, roteirista e diretor) – um deles, escrito por mim sobre A Noite do Desejo. Completa a edição as colunas de sempre e um especial sobre o índio no cinema brasileiro, no qual colaborei com crítica para o grande Serras da Desordem.

Tops

1965:

01. O Demônio das Onze Horas (Jean-Luc Godard)
02. Badaladas à Meia-Noite (Orson Welles)
03. De Punhos Cerrados (Marcos Bellochio)
04. A Vingança do Pistoleiro (Monte Hellman)
05; O Manuscrito de Saragoça (Wojciech Has)
06. A Hora e a Vez de Augusto Matraga (Roberto Santos)
07. São Paulo, Sociedade Anônima (Luis Sergio Person)
08. Simão do Deserto (Luis Buñuel)
09. O Colecionador (William Wyler)
10. Por uns Dólares a Mais (Sergio Leone)

1966:

01. Blow-Up (Michelangelo Antonioni)
02. Três Homens em Conflito (Sergio Leone)
03. Sete Mulheres (John Ford)
04. Persona (Ingmar Bergman)
05. Pequenas Margaridas (Vera Chytilová)
06. Os Pornografos (Shohei Imamura)
07. A Religiosa (Jacques Rivette)
08. A Grande Testemunha (Robert Bresson)
09. O Vadio de Toquio (Seijun Suzuki)
10. Armadilha do Destino (Roman Polanski)

1967:

01. Duas Garotas Românticas (Jacques Demy)
02. Um Caminho Para Dois (Stanley Donen)
03. O Tiro Certo (Monte Hellman)
04. Weekend à Francesa (Jean-Luc Godard)
05. Playtime (Jacques Tati)
06. Terra em Transe (Glauber Rocha)
07. Á Queima-Roupa (John Boorman)
08. A Marca do Assassino (Seijun Suzuki)
09. A Bela da Tarde (Luis Buñuel)
10. A China É Vizinha (Marco Bellocchio)

Caminhos Mal Traçados (Francis Ford Coppola, 1969)

Esperava mais de The Rain People, o filme que colocou Coppola no mapa no final da década o fazendo despontar como uma revelação, mas é um filme que envelheceu bastante. Durante muito tempo foi um trabalho de prestígio no curriculo do seu realizador, e considerado um dos seus melhores, mas já há muito que mal lembram do filme, que no começo faz pensar em Five Easy Piece (que é bem superior), de Bob Rafelson, outro filme com visão bem melancólica e desoladora em volta de figuras marginalizadas e sem ter para onde irem. O do Coppola não é ruim, mas força demais em torno de situações desagradáveis provocadas por seus personagens desajustados (Knight e Caan no filme todo , e Robert Duvall e a filha no final). A relação entre Shirley Knight e James Cann me fez pensar na de Robin Wright e Tom Hanks em Forrest Gump, para se ter uma idéia. Ela é uma dona de casa infeliz e grávida que abandona o marido e põe o pé na estrada por um tempo, dando carona a um ex-jogador de futebol que a acompanha em seu trajeto todo. Não demora ela descobre que o rapaz abandonou precocemente o esporte por causa de contusões na cabeça que o debilitaram mentalmente e ela percebe estar com um problema em mãos. Retardados são personagens delicados de serem retratados no cinema, e à parte uma interpretação bastante esforçada de Caan, não saberia dizer até onde Coppola acertou na descrição do seu protagonista masculino. Mas é um filme que pode agradar em cheio aos admiradores do cinema americano da época (entre os quais, eu me incluo).