O Fundo do Coração (Francis Ford Coppola, 1982)


Sou daqueles que acreditam que a apreciação de um filme pode mudar a longo prazo e no decorrer dos anos (embora já tenha encontrado gente que afirma não acreditar nesse tipo de reavaliação). É natural que isso não seja válido para todo filme. Um Poderoso Chefão sempre será considerado ótimo desde a época em que foi lançado, enquanto que é pouco provável que se venha a reavaliar positivamente Jardins de Pedra, talvez o pior trabalho de Coppola. Um filme que tem melhorado muito com os anos é One From The Heart, que sofreu uma estréia cercada de expectativas e com problemas de orçamento, e o que é pior, sucedendo aos clássicos do diretor na década de setenta. Hoje em dia podemos vê-lo melhor, acima dessas circunstâncias, ainda que sempre tenhamos que o analisar em termos de contexto dentro da filmografia de Coppola. Pois bem, muitas das críticas mais severas que se faziam ao filme são justas: a história é fraca, sua estrutura, irregular, e os atores deixam muito a desejar, etc. Muito visual para pouco conteúdo, diriam. Mas vários dos musicais da Metro (não todos, certamente) também não seriam visualmente maravilhosos, porém vazios de conteúdo, e ainda assim não eram envolventes e dignos de arrebatamento? O Fundo do Coração é dessa estirpe, só que numa linha mais autoral (digamos que o filme está para Coppola em comparação aos musicais antigos da mesma forma que os dois Kill Bill estão para Tarantino em relação aos filmes de artes marciais asiáticos que lhe serviram como inspiração/homenagem). Confesso que passado alguns dias após tê-lo revisto depois de anos, o filme (trama, personagens) já se desvaneceu um bocado da memória, mas as lembranças das sensações que provocou continuam firmes, como as de sua Las Vegas excessivamente artificial, uma Las Vegas reconstruída em estúdio e que por certo não existiu nem antes nem depois a não ser na imaginação de Coppola. O Fundo do Coração não é um filme difícil de apreciar, tanto quanto na mesma medida que é muito fácil de apedrejá-lo. É como se Coppola se revelasse com esse filme um diretor cujo visão de cinema se baseia mais em efeitos de superfície. Um maneirista concentrado apenas com o estilo e numa certa afetação que resulta entre o sublime e o perigosamente a beira de ser visto como cafona (o que seria um equívoco, porque o filme prima pelo bom gosto visual, não obstante os seus excessos e rebuscamentos). Serge Daney, acerca do filme de Coppola, comentou que o seu maneirismo se define como algo em que, mais do que a partir de seres humanos, tudo acontece de imagens – e para as imagens. One From The Heart é um filme torto e exuberante que apenas passeia pelas suas imagens, ao som de uma ótima trilha assinada por Tom Waits. E não há pecado ou mal algum em se deixar levar por estas imagens e por suas canções.

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5 Respostas para “O Fundo do Coração (Francis Ford Coppola, 1982)

    • Bem lembrada a influência do Powell-Pressburger, a grandiosidade visual do filme (e suas canções) é irresistivel.

      • E o lance de reconstruir Las Vegas em estúdio é bem a cara do Michael Powell. Nessa época Powell era “Senior Director in Residence” da Zoetrope seja lá o que exatamente isso pode significar (algum tipo de consultor criativo) e esse foi o primeiro filme do Coppola com ele por perto, aparentemente não deu muita sorte.

  1. Pingback: O Fundo do Coração (Francis Ford Coppola, 1982) « O Olhar Implícito | Clicque Auto

  2. Talvez a mesma falta de sorte que já vinha acompanhando o Powell no final da carreira dele (pelo menos em A Tortura do Medo, não sei se teve outros casos).

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