Mistérios de Lisboa (Raoul Ruiz, 2010)


Ver Mistérios de Lisboa me deixou com vontade de ir atrás da obra de Camilo Castelo Branco, autor português que jamais pensei em ler na vida. Ruiz parece que retira o pó com que tendemos a enxergar esse tipo de literatura romântica do século XIX que julgamos convencional e obsoleta, como se nos sugerisse que por trás dela pode haver muitas outras histórias e mistérios que ultrapassam nossa compreensão rápida e imediata. Lógico que muito do filme é consequência do estilo cinematográfico e narrativo de Ruiz, particularmente fascinado pela idéia de uma recursividade (que parece infinita) de histórias dentro de histórias. Sua câmera não pára um minuto da mesma forma que quase não há interrupções nos seus excessos de ficções e acúmulo de histórias uma saindo da outra o tempo todo, algumas menores e outras mais importantes (mas todas essenciais), e personagens que entram em cena, somem e depois reaparecem, às vezes mudados, crescidos, diferentes. São ao todo cinco partes (“O Menino sem Nome”, “O Conde de Santa Bárbara”, “O Enigma do Padre Dinis”, “Blanche de Montfort” e “A Vingança da Duquesa de Cliton”) que só podem ser vistas e compreendidas em conjunto, narrativas circulares, labirínticas, nas quais nos perdemos com deleite, mas sem diminuir nosso interesse, porque sempre podemos mentalmente remontá-las e ligar um personagem (e fatos) ao outro. Com um rigor que ora beira o classicismo ora um maneirismo bem barroco, é narrado com grande frontalidade e elegância (além de enquadramentos e angulações inesperados), e em termos de encenação poderíamos pensar nos filmes históricos de Manoel de Oliveira, Rivette (Não Toque no Machado), Rohmer (A Inglesa e o Duque, Os Amores de Astree e Celadon), Barry LyndonMistérios de Lisboa é tão bem filmado que seria possível ficar quinze horas diante dele acompanhando seu desfile de episódios e jogos de intrigas. Para se ter uma idéia, seu protagonista a principio é uma criança bastante presente no começo do filme, que desaparece para dali em diante apenas narrar as histórias dispersas que vão se desdobrando, terminando por bem mais tarde tomar parte delas já adolescente, quando se apaixona pela Duquesa de Cliton, e fazendo com que as histórias dentro de histórias terminem se encontrando e se tornando, enfim, uma história central. O filme é condensado de uma série para a TV portuguesa de cerca de seis horas de duração (que inclui um capítulo, “Os Crimes de Anacleta dos Remédios”, que Ruiz suprimiu para esta versão de quatro horas e meia lançada nos cinemas).

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