Lua-de-mel de Assassinos (Leonard Kastle, 1969)


Visto como uma curiosidade histórica do cinema americano do final da década de 60, dificilmente um outro filme surgido da influência de Bonnie e Clyde naquela época seja ainda hoje mais perturbador que The Honeymoon Killers, cujo lançamento em dvd pela Criterion ajudou a reforçá-lo como um objeto de culto por parte de alguns círculos de cinéfilos. Isso porque (gostando ou não) o seu estilo é bem a frente do seu tempo, mais próximo da secura e atmosfera doentia da narrativa de um filme posterior como Henry – Retrato de um Assassino do que das produções do período em que foi realizado.

O filme talvez não seja tão conhecido (além de que o fato de ser rodado em P & B num momento em que o cinema americano abandona de vez essa característica em suas produções também pode tê-lo atrapalhado) por ter sido o único dirigido por Leonard Kastle, que possuía carreira de compositor, e não é difícil acreditar que sua sensibilidade musical influiu na criação do andamento de sua narrativa (e montagem) como uma partitura, que não nos remete, necessariamente, a nenhum “conceito”, mas uma narrativa de forma direta, nada afeita a firulas ou falatório, um exemplo de justeza e precisão quase cirúrgicas cuja execução nos agarra e conduz a caminhos inusitados (vale destacar também a trilha sonora composta pelo primeiro movimento da 6ª sinfonia de Mahler).

O filme quase sempre parte de materiais e situações típicas do gênero, mas sua abordagem beira o documental, descrevendo os crimes verídicos que ocorreram nos Estados Unidos da década de 40 cometidos por um casal de excluídos sociais que se conheceram através de um anúncio numa rede de relacionamentos, e que se juntam para uma série de golpes em cima de mulheres ricas e solitárias que o rapaz seduz para depois assassiná-las e ficar com seus dinheiros.

The Honeymoon Killers não apela para simplificações grosseiras em sua representação de uma parcela excluída da lógica do capitalismo, mas gira em torno de monstros sociais como protagonistas: o casal, em que ela (Shirley Stoler) é uma enfermeira marcada por uma grotesca constituição física e obesidade mórbida, e ele (Tony Lo Bianco, que trabalharia depois em Operação França e Serpico) dono de um comportamento selvagem e rude, com uma personalidade psicótica latente. O desenvolvimento das relações entre os algozes e as vitimas são mais curiosas do que as cenas dos assassinatos em si, o próprio filme é uma observação cuidadosa dos seus personagens, mas sem se perder em mensagens ou explicações.

Consta que algumas cenas foram rodadas por Martin Scorsese, o primeiro diretor contratado para filmá-lo (seria o seu segundo longa), mas despedido depois de uma semana por não se adaptar às exigências impostas pelo orçamento reduzidíssimo (de 150 mil dólares), sendo completado pelo próprio autor do roteiro. Lançado como um típico filme americano B e exploitation da época, fez um sucesso financeiro relativo na Europa (Truffaut o chamou de “my favorite American film”), mas foi um filme que nunca pegou aqui no Brasil.

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