Havia prometido a mim mesmo que não veria Inception (odeio os dois Batman do Nolan), mas acabei me traindo. Vez ou outra me batia uma curiosidade mórbida pelo filme e terminei levando-o pra casa numa ida a locadora.

A esta altura já se falou de tudo do filme, basicamente ele me encheu de tédio (ao final da sessão, estava arrependido de tê-lo visto) porque no cinema os sonhos devem ser tratados de forma onírica, não pragmática como aqui. Em dado momento já não tinha mais interesse em saber o que era sonho ou não, lembrança ou realidade (e não se trata de “não entender = não gostar”, porque têm filmes que adoro sem compreender tudo deles, mas me fascinam, o que não ocorre em relação a Inception, até porque Nolan faz questão de sempre explicar e esclarecer tudo em seu filme para não correr o risco de perder o espectador pela mão).

Da mesma forma que os seus Batman, esta é uma fantasia hiper-realista: quer ser um filme de fantasia, mas não abre mão de um tratamento super-realista, tornar o irreal absolutamente real diante de nossos olhos, o que é contraproducente, visto que não permite que a fantasia se transforme em algo mágico, nem que se converta em encanto. E como The Dark Night, durante mais de uma hora é bem modorrento, depois se torna adrenalínico nos últimos quarenta, cinquenta minutos (como um longo clímax sustentado), e consequentemente mais suportável – mas sempre insípido.

É um cinema profundamente matemático/geométrico/ arquitetônico, além de todos os seus excessos de engenhosidade, e apesar de repleto de furos (e não são estes que necessariamente o fazem um filme tão ruim, vale dizer). Comentei no facebook que há muito não via um filme com um catálogo de direção de arte tão suntuoso como este, onde mais se decora a imagem com efeitos, objetos e detalhes na cenografia e no visual ao invés de propriamente trabalhá-lo a partir de uma mise en scène – é filme de decorador, não de um cineasta.

Para encerrar, não pude deixar de lembrar de Ilha do Medo em certos momentos do filme, não apenas por Leonardo Di Caprio (que já foi bom, agora é o ator mais mala da atualidade), mas por mais de uma proximidade que é possível de se estabelecer entre ambos. Suas diferenças (sobretudo no roteiro e no trabalho de direção) explicam porque Ilha do Medo é um bom filme; as semelhanças, contudo, justificam os motivos porque muitos também o consideram um embuste.

Anúncios

10 Respostas para “

  1. Já não tenho mais saco pra assistir este tipo de filme,e provavelmente se assistí-lo terei a mesma opnião sua.

    • Depois que a gente se acostuma com um cinema mais direto, sem firulas e sem frescuras, fica dificil encarar esse tipo de filme. Não que todos precisem ser obras-primas (The Ward, por exemplo, tá muito longe de ser uma, mas é bem bom), mas pega esse Inception: só teve um único momento que posso dizer que gostei (a cena de perseguição na neve, perto do final), o que pra um filme de cerca de duas horas e meia é muito pouco.

  2. Muito bem dito, Vlademir. Também achei esse filme tedioso. Mas o pior é que ele transforma os sonhos em algo racional. Buñuel com certeza odiaria!

    E, sim, Ilha do Medo é muito melhor.

    Abs

  3. Ilha do Medo eu tenho problemas com o final, mas é um belo filme: é a diferença entre um cineasta (Scorsese) e um picareta que dominou a técnica e com centenas de milhões de dólares a sua disposição.

  4. Gostei da proposta de “A Origem” quando assisti ao filme nos cinemas. Sobretudo por causa intensificação na montagem alternada do final, aumentando o clímax para uns 45 minutos. Mas quando revi “O Último Mestre do Ar” – em DVD e sem o medíocre 3D dos cinemas – fquei com o címax do filme, que dura apenas 4 min, na cabeça. É uma aula de cinema: em termos ângulos, escolhas de pontos de vista, ritmo, métrica e economia, que faz o tal “impressionante” clímax de “A Origem” parecer uma solução fácil do Nolan. Continuo achando “O Último Mestre do Ar” o mais fraco do Shyamalan, mas agora gostei mais do que da primeira vez em que vi.

    • Também ando querendo rever O Ultimo Mestre do Ar (que é mesmo dos seus filmes mais fracos), mas não troco nenhum do Shyamalan pelos do Nolan.

  5. Caro Vlademir, como explicar então que outros críticos tais como o Luiz Carlos Merten serem tão apaixonados pelo filme?
    O que eles veem nesse filme, que críticos como vc acham um blefe, um embuste?
    Difícil entender a cabeça de crítico!!!
    abs

    • Não é dificil de entender, Elson. Cada crítico tem uma cabeça, um ponto de vista, um olhar diferente para com o cinema, que não é uma ciência exata sobre o qual todos devam pensar/enxergar da mesma maneira. O Merten também se derramou em elogios por O Cavaleiro das Trevas, natural que ele também se deleite com A Origem, que não nega em nada o estilo do seu diretor. O Merten nunca foi um crítico que eu apreciasse, gosto do seu blog pela paixão dele de cinéfilo (por conhecer muitos filmes antigos, obscuros ou não, relembrar diretores, contar causos e histórias, etc.), mas como crítico ele costuma babar muito fácil por filmes novos que não são minha praia: esses do Nolan, Quem Quer Ser Milionário, O Curioso Caso de Benjamin Button (que eu gosto muito, mas que é cheio de problemas narrativos/estruturais que o Merten sequer chegou perto de mencionar quando escreveu a respeito do filme), etc.

      E já que você invocou outros críticos, não são todos apaixonados pelo filme do Nolan, não. Longe disso. Muitos deles (como Inácio Araujo e José Geraldo Couto, para ficarmos em apenas dois exemplos – vale a pena procurar os textos de ambos sobre o filme do Nolan) também detestaram ou questionaram muito o valor de Inception.

      • Obrigado pela resposta, além do Merten eu me lembrei também da Ana Maria Bahiana que havia gostado bastante do filme tb, as pessoas em geral com que eu conversei gostaram imensamente , à época de 5 estrelas eu dei 4, aliás o meu primo quando viu que eu tinha dado “só” 4 estrelas, ficou indignado comigo.
        -“Como vc pode dar 4 estrelas e meia pra “Bastardos inglórios” e só 4 pra “A origem”?

        Pensando bem, preciso revê-lo pra ver se permaneceria a mesma cotação.
        Abs

  6. A Origem é fraco mesmo, apenas um apanhado frio e caótico de teorias ora interessantes ora meio “tanto faz” cuspidas na cara do espectador, sem cuidado imersivo nenhum. Mas gosto bastante dos Batman’s do Nolan.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s