Melancolia (Lars von Trier, 2011)

<
Melancolia abre com um dos planos mais horrorosos do cinema contemporâneo, o da imagem que ilustra o post. Como na maioria dos filmes mais famosos de Lars Von Trier (Ondas do Destino, Dançando no Escuro, Dogville), o diretor (e sua misoginia/misantropia) quer mesmo é tripudiar em cima de uma personagem feminina, apresentando-as como vítimas, fazendo-as sofrerem em mãos alheias ou como vítimas de si mesmas – no caso de Kirsten Dunst, que nunca apareceu tão enfeada como em alguns dos planos aqui apresentados, uns entre tantos retoques exoticizantes/ fetichistas dentre o que cineasta vem fazendo nos últimos quinze anos.
De certa maneira, até que no seu novo filme ele não pega tão pesado com suas personagens centrais. Um pouco porque dessa vez ele divide a condição de protagonista em duas metades: as personagens de Dunst e a terrivelmente oca e vazia Charlotte Gainsburg, cujo desespero em toda segunda parte do filme jamais conseguimos acreditar.
Muito por causa dos procedimentos estéticos com seus tiques subestilisticos que eram uma novidade na época do surgimento do Dogma, mas que depois se transformariam no que de mais formulaico se apresenta num certo subcinema de arte: câmera tremida, inconsistências de luz, e acima de tudo os cortes bruscos, os zooms muito toscos, etc. Nada muito diferente do que visto num filmeco que adotava esses mesmos recursos como O Casamento de Rachel, de Jonatham Demme. Por sinal, toda a primeira metade – que dura pouco mais de uma hora – de Melancolia transcorre numa festa de casamento também.
Sequência divina: o corpo nu de Kirsten Dunst banhado pela luz de Melancholia (o planeta) à beira do lago. Pena que dure tão pouco, Lars.
Na segunda metade, imagens muito fortes e algumas bonitas como as dos tableaux vivants no começo (após o plano com o rosto de Kirsten), mas quase tudo me soa como pura perfumaria. Richard Wagner poderia ser creditado como co-autor involuntário do filme: muitos dos momentos mais sedutores de Melancolia (com sua beleza friamente calculada) se dão pela utilização constante do batidissimo tema de Tristão e Isolda.
Há um bom tempo que não via nada do diretor dinamarquês. Quanto a Kirsten Dunst, seus melhores filmes seguem sendo, disparados, Small Soldiers, As Virgens Suicidas e O Miado do Gato.