Melhores de 2011

Nesse ano a lista de melhores da temporada será diferente do que vinha fazendo em anos anteriores aqui no blog. Contei cinqüenta e poucos filmes vistos do circuito de estréias do Brasil em 2011, número até pequeno se comparado com o de outros críticos e cinéfilos, mas duvido que tenha perdido coisas significativas em grande quantidade. Mas não dá mais para fazer listas de melhores do ano restritas ao circuito. Não há sequer como fazer um Top 20 circuito sem que seja necessário recorrer a condescendência e à falta de rigor crítico com os filmes. Daí que o top de melhores de 2011 abaixo está dividido em duas partes: circuito e uma lista B com títulos inéditos. A lista do circuito é a mesma que mandei há duas semanas para o Multiplot (que publicou ontem um top coletivo formado pelas discussões entre a equipe, e que pode ser conferido aqui), acrescido de dois títulos: o de Van Sant (visto no domingo passado) e o dos Farellys (revisto no mesmo dia). São listas limitadas pelo que pude ver dentro do meu alcance e possibilidades, mas creio que bem ou mal não deixam de ser um recorte do cinema contemporâneo dos últimos dois anos, além de uma pequena prévia na lista de inéditos do que ainda pode estrear para os interessados que acompanham o circuito.



01. Além da Vida (Clint Eastwood) e Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (Apichatpong Weerasethakul)

Empatados no topo da lista dois filmes que sempre me encantaram e dentre os quais teria dificuldade de optar por apenas um. Fãs de um e de outro diretor de ambos os filmes provavelmente não aceitariam vê-los tão próximos, mas se tratam de duas obras que lidam com aspectos similares, cada qual à sua maneira, em relação à morte e a espiritualidade, o do tailandês desenvolvendo-se como um filme de fantasia, mesclando o real e o sobrenatural, enquanto que o de Clint permanece no plano terreno e materialista, bem mais pé-no-chão. Não são filmes de respostas, mas de incertezas e de mistério diante de um fenômeno em torno da vida e sua finitude. Uncle Boonmee trata de uma jornada final rumo à morte, enquanto que Hereafter é notável em sua busca bem particular para dar corpo a um encontro: o de duas solidões que se procuram. Definitivamente não vi filmes melhores nesse último ano.


02. Caminho Para o Nada (Monte Hellman)

Uma pena ter sido tão mal lançado no país mas é louvável que a Lume o tenha distribuído no circuito de estréias (provavelmente ano que vem será exibido em outras praças por onde ainda não passou até agora). O retorno do mítico diretor mais que um puro exercício e thriller metalinguístico vai se desenvolvendo como um jogo com o espectador, incorporando a equipe do diretor fictício ao filme que está sendo rodado dentro do filme, e a escolha e relação intrincada do trabalho dos atores às personagens e ao realizador que os comanda. Paralemente, constrói uma idéia de filme policial (vagabundo ou sofisticado, tanto faz) muito mais que propriamente a de um filme de gênero em si, com conspiração e múltiplas pistas na investigação do crime ainda não esclarecido. E há também as mulheres nos filmes de Monte Hellman, cuja natureza e presença são sempre rodeadas pelo âmbito de um mistério.


03. Singularidades de uma Rapariga Loura (Manoel de Oliveira)

Depuração absoluta do cinema de Oliveira para essenciais 60 minutos, um conto de relação de desencontros amorosos fundada sobre a lógica do capital, com o seu protagonista masculino em torno da idéia de ter a rapariga loura como quem persegue uma imagem, movido por uma obsessão incontornável. Esteticamente Oliveira se esmera no tratamento dado à imagem estática, com os personagens frequentemente confinados pela simetria dos enquadramentos numa Lisboa suspensa pelo tempo, onde o vestuário, o cenário e hábitos de épocas mais remotas coexistem com a modernidade do mundo contemporâneo.


04. Homens e Deuses (Xavier Beavouir)

Com poucos filmes no currículo Beavouir talvez seja um talento que ainda deve ser um pouco mais burilado, mas Homens e Deuses se impõe bem pelo drama, a principio flertando com a idéia de um pequeno filme de comunidade, nos moldes (guardadas as devidas proporções) de um Testamento de Deus ou Sete Mulheres, num outro contexto e histórico (mais contemporâneo ao nosso, e ao mesmo tempo próximo e distante do olhar ocidental), com uma ameaça externa de violência irrompendo em meio à paz e religião do lugar, além da dicotomia civilização x barbárie. Concentrando-se mais no elemento humano que na violência, que é bem contida, ainda que vez ou outra se manifeste com grande força. O que assombra mesmo é a ameaça dessa violência.


05. Cópia Fiel (Abbas Kiarostami)

Talvez o maior mérito de Cópia Fiel seja o de ter feito o cinema de Kiarostami atingir platéias maiores do que obtera com sua filmografia pregressa, trocando a moldura do seu cinema por paisagens européias (além de nenhum iraniano em cena, e uma estrela mundialmente conhecida), mas nada diferente (ou maior) que a sua carreira em geral, ao mesmo tempo em que, sendo um autor cuja obra sempre ressoou de maneira tão universal, este último filme no fundo se trata de uma continuação dos experimentos que têm realizado na última década.


06. As Praias de Agnès (Agnès Varda)

Deveria ter sido mais comentando esse auto-retrato da grande realizadora francesa, um ensaio poético em que fala de sua vida (e mais que isso, montando um painel de mundo desde sua infância e juventude) e obra. Um caleidoscópio de épocas diversas, ou como uma série de espelhos como os estendidos ao ar livre logo no começo numa das praias que dão título ao filme, espaços privilegiados para os seus emaranhados de jogos e poesia pura. Um documentário interessado menos por páginas do passado da realizadora que por imagens, sempre o imaginário como um sentido de beleza ou estilo, um olhar para fazer cinema.



07. O Garoto da Bicicleta (Jean-Pierre e Luc Dardenne)

Não teria muito a dizer sobre O Garoto de Bicicleta a não ser de que o cinema dos Dardenne nunca fez muito minha cabeça, mas só conheço os seus filmes mais recentes, dos quais este último me parece o mais bem-resolvido. Os belgas me parecem de um estilo seco e com o rigor e olhar de quem souberam ver e compreender um Pialat, ainda que ocasionalmente se aproximem do melodrama e beirem um viés mais sentimental (que não raro lembra outro mestre francês: Truffaut).


08. A Árvore da Vida (Terence Malick)

Exaustivamente discutido em tudo quanto é canto, é muito fácil falar mal do filme de Malick por ele não dar conta de suas ambições celestiais (que por serem imensas por si só se tornam risíveis), porém é um projeto cujo resultado final muito me agrada, por mais aquém que esteja do que esperávamos. Cinema é uma arte que se deve saber o que incluir e o que deixar de fora, e Malick e seus montadores por vezes se perdem nesse processo. Mas dai a dizer que o filme não tem nada de bom me parece o equivalente míope dos que o consideraram tão perfeito a ponto de não questioná-lo em nenhum momento. Um filme que cega a muitos, tanto os que se deslumbram com tudo dele num sentido quase espiritual de revelação, quanto os que só conseguem enxergar o ridículo e o patético, quando na real o filme todo vai se equilibrando na corda bamba entre o sublime e o risível em seu fluxo torrencial de imagens. E não me refiro a imagens bonitas e aleatórias, mas do filme todo como uma sinfonia visual, o tipo de coisa que quando ocorre num filme de vanguarda ninguém se incomoda ou simplesmente ignoram, mas soa mesmo estranho num filme exibido nos multiplex e estrelado pelo Brad Pitt. Mas creio que não somos poucos os que já gostaram de diversos filmes sem compreende-lo muito de imediato, mas que se sentiram fascinados ou instigados por ele, sendo que Arvore da Vida embarca numa subjetividade quase plena e total, com uma fruição que a quem envolver vai deixar com a vontade de revisão logo em seguida (como foi o meu caso) ou então parecerá capenga e sem sentido. Não é um filme perfeito pelos motivos expostos por tanta gente ao longo do ano, mas permanece o meu preferido dos últimos três filmes do diretor. Enfim, sempre vou lembrar acerca dele de um comentário do crítico Ruy Gardnier, em seu twitter, que certa vez escreveu que Árvore da Vida é um filme com momentos ridículos, mas que pra falar mal dele é preciso de certa classe e cuidado que poucos tiveram.



09. Inquietos (Gus Van Sant) e Passe Livre (Peter e Bobby Farrelly)

Dois filmes de crise que despertam algumas reflexões em torno da questão do autorismo. Não há insinceridade por parte dos que se encantaram com algum desses dois títulos, pois só em proporcionar o mínimo que se espera de um filme dos seus realizadores já torna cada um deles acima da média do cinema americano atual – ainda que ambos estejam um tanto abaixo dos padrões que os próprios diretores costumam oferecer. Podem até ser trabalhos bem menores de cineastas que atravessam um impasse em suas carreiras aos olhos de quem as acompanham há muito tempo, mas não me surpreenderia que cinéfilos no futuro adentrassem o universo desses diretores (e tomassem gosto por seus estilos) a partir dos dois trabalhos em questão. Passe Livre é um dos filmes que pior equilibra a mescla de sensibilidade com estupidez na qual os Farrellys são mestres, porém continuam sendo dos diretores que mais provocam gargalhadas com piadas em torno de sexo, relacionamentos e as dificuldades masculinas de amadurecimento. O de Van Sant por vezes gira em falso mas não deixa de provocar fascínio com a estranha atração que seus protagonistas despertam e pelo diretor deixando sua marca num material mais corriqueiro e o transformando em um romance moribundo adolescente com alguns belos momentos de plenitude do seu cinema.


10. Incontrolável (Tony Scott)

Escrevi sobre este bem no começo do ano no Cineplayers quando foi lançado por aqui, mas a despeito de qualquer defesa que se possa fazer dos filmes de Tony Scott, eles sempre causarão mais estranhamento do que se estivéssemos falando de um J.J. Abrams, para ficarmos em outro nome mais aceito do cinemão americano. Mas Unstoppable foi o melhor blockbuster lançado nos cinemas brasileiros no ano, dando continuidade aos experimentos e empregos de diversos tons na fotografia, na textura e no tratamento das imagens, e excessos estéticos e estilísticos em geral com filtros diversos na filmografia de Scott nos últimos dez anos. Em termos de conteúdo, seu cinema mais recente é antigenérico, violentando os clichês de gênero mais do que propriamente aderindo a eles, com as narrativas e personagens dos seus filmes se desenvolvendo por meio de um fluxo não raro emocionais por trás dessas imagens retrabalhadas pelo olho do diretor, quase sempre numa edição ultra-rápida, sem que os filmes abandonem a condição de thrillers a que se propõem.

Lista B: Inéditos


01. Mistérios de Lisboa (Raul Ruiz)

Ruiz parece retirar o pó com que tendemos a enxergar certo tipo de literatura romântica do século XIX, que julgamos convencional e obsoleta, como se o diretor chileno nos sugerisse que por trás dela pode haver muitas outras histórias e mistérios que ultrapassam nossa compreensão rápida e imediata. Claro que muito do filme é consequência do estilo cinematográfico e narrativo de Ruiz, particularmente fascinado pela idéia de uma recursividade (que parece infinita) de histórias dentro de histórias. Sua câmera não pára um minuto da mesma forma que quase não há interrupções nos seus excessos de ficções e acúmulo de histórias uma saindo da outra o tempo todo, algumas menores e outras mais importantes (mas todas essenciais), e personagens que entram em cena, somem e depois reaparecem, às vezes mudados, crescidos, diferentes. Histórias que só podem ser vistas e compreendidas em conjunto, narrativas circulares, labirínticas, nas quais nos perdemos com deleite, mas sem diminuir nosso interesse, porque sempre podemos mentalmente remontá-las e ligar um personagem (e fatos) ao outro.


02. Detective Dee and the Mystery of Phantom Flame (Tsui Hark)

Faz uns dois anos que venho assistindo os filmes de Tsui Hark com alguma regularidade e eis um cineasta que em sua melhor forma nos arrebata como poucos (alguma publicação brasileira precisa urgentemente fazer um especial em torno de sua filmografia). Muitos ainda eu não conheço, mas este novo e outro dos anos noventa, Green Snake, embora nenhum dos dois seja meu favorito do diretor, possuem uma mescla de contos de fadas adultos com artes marciais visualmente exuberantes e ricos em aventura e ação dramática. Detective Dee é uma fábula política com toques sobrenaturais e de suspense que são de encher os olhos, a convicção que nos deixa é que poucos trabalhos possam superá-lo nesse começo de década.


03. Essential Killing (Jerzy Skolimowski)

Vincente Gallo conta aqui com uma impressionante presença em cena, mas o grande responsável pela beleza que é o filme é o seu diretor, que recupera um clima de thriller de ação numa experiência predominantemente física por uma natureza selvagem e um exuberante cenário montanhoso e enevoado, extraindo sua densidade a partir de paisagens, corpos, sons e cores em constante ação e movimento. Que Skolimowski filme mais vezes.


04. Habemus Papam (Nanni Moretti)

O papa recém-eleito entra em crise e Nanni Moretti é o psicanalista chamado para tratá-lo. Gostaria de retornar a ele e escrever algumas palavras mais elaboradas num futuro próximo quando o filme entrar em cartaz no Brasil, enquanto isso não ocorre pode-se dizer que é mais uma brilhante comédia dramática e irônica do diretor italiano aqui em torno de temas espinhosos como Vaticano e dos conflitos da religião com conflitos mundanos e existenciais. Os filmes de Moretti fazem bem a alma e as nossas consciências.



05. Ne Change Rien (Pedro Costa) e Morrer Como um Homem(João Pedro Rodrigues)

Há uma distância entre o cinema português e parte do público mesmo o mais cinéfilo que deveria ser rompida. Com exceção do de Agnès Varda os três filmes portugueses escolhidos são os mais antigos desse top (contando com o do Oliveira), mas valem a menção por que além de que os dois da lista de inéditos eu só pude assistir nesse ano, os filmes portugueses em geral incluindo os mais importantes sofrem com uma certa obscuridade e demoram um bocado a se tornarem mais acessíveis, mesmo se comparados aos de outras cinematografias européias. Ne Change Rien talvez não seja a melhor porta de entrada para a filmografia de Pedro Costa, mas parece o seu trabalho mais sedutor, com o cineasta encenando uma série de variações entre a luz e as sombras em torno da voz e performances de Jeanne Balibar, dos ensaios às gravações, do rock ao canto lírico, das garagens aos palcos internacionais, constituindo-se num extraordinário processo sobre a criação e de uma manifestação artística tomando forma – não menos o cinema do que a música, vale ressaltar. Uma peça cinematograficamente musical e de uma plasticidade incrível. Já Morrer Como Um Homem é mais desigual, mas é curioso compará-lo a um filme como o novo de Pedro Almodóvar, quando vi o do espanhol, cheguei a pensar no quanto algumas de suas obsessões poderiam me incomodar, vendo o de João Pedro Rodrigues que leva certos temas como o travestismo e troca de sexo ainda mais longe, mas sem que o filme termine sufocado por um estilo particular e seu excesso de cálculo faz com confirme que meus problemas com o espanhol é com o seu cinema, não a sua temática. Ainda que não seja uma obra-prima, Morrer Como um Homem é muito mais filme.


06. O Cavalo de Turin (Béla Tarr)

Comentei semana passada sobre o filme aqui no blog, resta acrescentar que se Béla Tarr realmente cumprir o prometido de O Cavalo de Turim ser o seu último trabalho para o cinema (ele foi filmado como o seu testamento), então junto com Mistérios de Lisboa teremos nesse começo de década dois últimos grandes filmes finais fechando a carreira de seus realizadores. Uma fantasmagórica sucessão de alguns dos mais belos planos encontrados em qualquer filme recente, onde nada parece ocorrer mas com o filme se movendo suspenso pelo tempo.


07. Oki’s Movie (Hong Sang-soo)

Até quando Hong Sang-soo vai nos entregar sempre o mesmo filme? Enquanto isso continuar ocorrendo só nos resta nos deleitarmos com cada um deles. Á distância sua obra pode nos passar uma falsa impressão de repetição perpétua, porém o coreano é como aquelas bandas ou compositores que parecem refazer sempre o mesmo disco, mas nos aproximarmos de suas obras equivale a sempre uma revelação diferente. Oki’s Movie dá continuidade aos contos de cinema e de amor que Hong vem depurando há mais de uma década em sua filmografia.


08. Meek’s Cutoff (Kelly Reichardt)

Listas de melhores desse ano só merecem um faroeste. Não está muito distante do talentoso filme anterior de Reichardt (Wendy & Lucy, também com Michelle Williams), com os personagens presos na angústia de pertencerem a um universo sem saída que se repete continuamente, habitando um espaço claustrofobicamente circular. No caso desse último, uma caravana de emigrantes que se perdem num deserto de pedras e precisam lidar com a fome, a sede e o instinto de sobrevivência que vai acumulando uma série de conflitos entre os membros do grupo. Sofre um pouco com um ritmo claudicante no miolo do filme, o que só acentua a experiência com que os personagens se confrontam.


09. As Quatro Voltas (Michelangelo Frammartino)

O cinema italiano atual me lembra um pouco o brasileiro: alguns poucos veteranos que salvam a pátria (no caso deles, Marco Bellocchio e Nanni Moretti) e uma produção com nomes recentes que deixa muito a desejar. As Quatro Voltas não é o filme que vai salvar o cinema italiano da UTI em que se encontra, mas é uma exceção com o seu trabalho de dramaturgia em torno da vida animal (com ênfase num cão e num cabrito recém-nascido), e com uma notável guinada em seu meio.


10. A Separação (Asghar Farhadi)

É bastante curioso a forma com que parte do público cinéfilo brasileiro abraçou os dois filmes recentes de Farhadi, que se constroem de formas semelhantes, nos levando primeiro numa direção e nos surpreendendo em outra, construindo uma teia de relações que no anterior Procurando Elly envolvia o mistério de um desaparecimento, e nesse novo uma briga judicial que culmina com que os personagens vão despencando como em efeito dominó. Geralmente filmando a calmaria como que preparando os instantes de turbilhão prestes a explodirem, o que poucos hoje em dia dão forma como o faz o iraniano.

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Carnage ( Roman Polanski, 2011)


Quase um retorno de Polanski às comédias insanas do começo de sua carreira (Cul-de-Sac, Que?), aqui restrito ao espaço de um apartamento, mas sem a mesma estrutura anárquica. Um casal que não consegue ir embora, outro que não pode se livrar da visita que logo se revela indesejada. Carnage se mostra melhor em sua primeira metade, com os personagens ainda forçando uma certa polidez, mas com uma tensão subentendendo-se e evidenciando-se na tela. Quando os personagens despirocam, o filme cai junto com eles, embora sempre nos preservando interessados. Polanski é correto demais com sua sátira, o que acentua as limitações do texto, reforçando as origens teatrais. Tivesse o seu humor não sido tão previamente calculado, e seu cinismo tão entregue na boca dos personagens que vão trocando farpas entre si (primeiro casal contra casal, depois homens versus mulheres), teriamos um ótimo filme, não apenas um que nos prende a atenção por setenta minutos (o tempo total de metragem, descontado os créditos), mas cujo impacto logo vai se enfraquecendo na memória. Fica como um curioso filme menor de Polanski feito após o muito bem-recebido O Escritor Fantasma.

O Cavalo de Turin (Béla Tarr, 2011)


Á parte tudo que se diz dos filmes de Béla Tarr me impressiona em O Cavalo de Turin o quanto ele se aproxima do cinema mudo. E não me refiro aos silêncios e escassez de diálogos (que não raro são procedimentos recorrentes num certo tipo de cinema autoral), mas como arte visual mesmo, o trabalho a partir de uma estética que ao natural se assemelha antes de mais nada ao cinema mudo. O fluxo de imagens com os planos que decorrem num andamento lento, num espaço da casa (e fora dela) onde parece não ocorrer nada, porém marcado de perpétua repetição, espaço essencialmente concreto e materialista, que reduz o mundo ao pai e a filha confinados, o cavalo doente, o poço, as batatas, os vendavais, a carroça, etc. O filme não deixa de ser um deleite para os olhos, que me fez pensar em Sjöstrom, até a música e ruidos sonoros remetem à alguma trilha escolhida para acompanhar um filme do cinema mudo, como se estivesse vendo um melodrama concebido e filmado em 1927. Ou então suspenso no tempo como que não pertencendo a nenhum em específico.

Drive (Nicolas Winding Refn, 2011)

Devo escolher se acho Drive um lixo ou uma obra-prima ou posso dizer que não é um nem outro? Difícil entender as reações extremas de quem amou ou odiou e que resultaram numa guerra de comadres em torno de somente um filme B inconsequente ou não, e cujos prazeres residem em sua superíficie, e não há nada de mal nisso. Podem invocar certa perfumaria a partir dessa circunstância, mas se ela existe não chega nem perto de ser tão pesada ou o filme tão pseudo como ocorre em um Aronofsky ou num Lars von Trier. Pois caso for, então caí na picaretagem do Refn, mas vale dizer que nem a cena de abertura é tão genial como disseram ou tampouco o filme se desvanece completamente depois dela. É uma trama policial combinada com o barulho dos motores e carros acelerados como extensões dos corpos dos seus personagens, como complemento da figura masculina. Muito distante de um Walter Hill ou Michael Mann como querem os fãs, peca apenas na violência gráfica excessiva de algumas sequências bastante torpes que parecem concebidas por um açougueiro.

Margin Call – O Dia Antes do Fim (J.C. Chandor, 2011)


Como filme de engravatados e suas calculadoras frias em tempos neoliberais não chega nem perto de um A Questão Humana, que além de ter mais o que dizer também era mais eficaz como thriller corporativista. Margin Call tem momentos bem fortes em torno de um mundo prestes a entrar em colapso. O fato de quase todo ele transcorrer dentro do edifício do banco de investimentos só reforça a condição de um universo à parte e fechado como uma bolha. Não imaginava que o filme seria tão morno em toda a sua primeira metade, mas acidental ou não pode ter sido um acerto que Jeremy Irons tenha sido deixado estrategicamente de lado até então para que quando surgisse no filme irrompesse como um vulcão. Ele quase engole todos à sua volta, ameaça tirar dos eixos um filme que até então parecia tão controlado e burocrático, e com isso os arroubos ou mesmo as por vezes assustadora tranquilidade de Irons em cena caem bem em Margin Call, temperando a dramaturgia conduzida pelo estreante Chandor. Mesmo o restante do elenco cresce junto com o filme a partir da entrada do veterano ator.