Édipo Rei (Pier Paolo Pasolini, 1967)


Édipo Rei, Pier Paolo Pasolini, 1967 **¹/²

Achava que Édipo Rei poderia se converter num favorito meu dentre os filmes de Pasolini. Mas foi uma decepção, começo a acreditar que o italiano faleceu sem ter legado uma obra-prima, ainda que deixando uma obra suprema, Saló ou Os 120 Dias de Sodoma (por todo seu desespero de mundo, e sua condição de ponto de chegada em sua obra, não à toa seu último filme, difícil imaginar o que poderia ter feito dali em diante). Édipo Rei se constrói um pouco à maneira de O Evangelho Segundo São Mateus, com o personagem em direção ao seu destino e se voltando contra o próprio pai rumo à queda no final, mas se no outro Pasolini pôde nos apresentar uma versão de Jesus revoltado e comunista (o diretor era um ateu apaixonado por Cristo), em Édipo Rei pouco faz além de acreditar que a força da tragédia sustentaria o filme por si só (parece um trabalho realizado sem muita convicção). Por mais que possa não agradar a muitos, Saló seria um filme com bastante a dizer (ou mostrar), enquanto que Édipo Rei termina sem que nos atinja em nada. Ambos os filmes atualizam histórias clássicas de séculos passados para a Europa contemporânea, mas se Saló é muito mais forte é por causa da capacidade de representação concreta de suas idéias, expandindo seu olhar do totalitarismo no microcosmo de uma república fechada de colegiais aprisionados durante a Segunda Guerra para uma alegoria bem mais ampla do fascismo como algo universal, com todos os seus elementos físicos, o trabalho com os atores e expressões corporais deles, a atenção com objetos de cena e ambientes, formando em seu conjunto uma verdadeira representação do inferno na Terra. Já Édipo Rei tenta atualizar o mito grego no mesmo período de Saló também na Itália transpondo a história para um deserto e reino de Corinth que aparenta ser um lugar nenhum qualquer, tornando o filme inexato e pouco especifico, apostando no texto de Sófocles para não tombar. Um material desses pediria um realizador mais apto para a tragédia como Visconti ou com um olhar mais apurado para a mise en scène igual o de Cottafavi, hábil tanto no melodrama quanto no épico destituído de ornamento com personagens da Antiguidade clássica (ele inclusive filmou Sófocles, mas desconheço se possui alguma versão de Édipo).  Quanto ao filme de Pasolini, que faria coisas melhores antes e depois, ele nos lembra que, se existe a tendência de acreditarmos que apenas diretores operários-padrões filmam no piloto automático, o mesmo acontece também ocasionalmente com cineastas autorais (Édipo Rei parece em relação a sua época o equivalente a uma idéia muito em voga atualmente de filmes para festivais).

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