O Convento (Manoel de Oliveira, 1995)


O Convento, Manoel de Oliveira, 1995 *****

Um dos poucos filmes de Manoel de Oliveira lançado em vhs nos anos 80/90, O Convento foi a referência que grande parte do público e crítica, despreparados e pouco habituados ao diretor português, teve para avaliar o seu cinema. Foi quando se criou a idéia de os filmes do Oliveira como chatos, mal-acabados e redundantes (que pecado…). Pois bem, assistindo O Convento percebe-se como a crítica da época (a dos jornais, da SET, Rubens Ewald Filho − creio que Inácio Araujo era então um dos raros que o defendiam) tão pouco tratou, de fato, do filme, desprezando-o como um OVNI, um objeto estranho a ter aportado por estas plagas naquele período. Um pesquisador americano (John Malkovich) e sua esposa (Catherine Deneuve) pretendem investigar supostas origens espanholas de William Shakespeare, deslocando-se até um monastério na península ibérica onde parece haver documentos importantes sobre o assunto. Lá, são recebidos pelo guardião do lugar, Baltar (Luis Miguel Cintra), que vive com Piedade (Leonor Silveira) uma relação pouco esclarecida. A questão sobre Shakespeare é um pouco deixada de lado no filme, que se revela com toques de sugestão de horror sobrenatural (como aqueles filmes em que uma pessoa ou grupo chega num lugar diferente e esse local tem uma atmosfera estranha e de mistério, além de referências a Fausto, de Goethe). O que é realçado pela presença do cenário, o convento, a praia, e todo o espaço composto de grutas, bosques, capelas, os corredores e as esculturas que guardam os seus segredos, tudo a formar uma dimensão labiríntica onde ocorre certa inversão de casais, com os homens a se deixar fascinar pela mulher do outro: Piedade é que passa a auxiliar o americano quando este se recolhe aos quartos fechados do convento para o estudo dos documentos para a sua pesquisa, enquanto que a esposa deste, do lado de fora da residência, por entre os galhos gigantes das árvores do bosque, se deixa envolver por Baltar, o guardião (ou o próprio diabo?) daquele inferno (ou cemitério com seus mortos) monástico. A encenação é das mais rígidas e impecáveis de Oliveira, e até a utilização da música é perfeita pro clima pretendido. Sem dúvida, O Convento é um dos centros dessa aventura no cinema moderno que é a obra do diretor português.

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