A Hora Mais Escura (Kathryn Bigelow, 2012)

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Zero Dark Thirty, Kathryn Bigelow, 2012 ***¹/²

Já em seu começo, Zero Dark Thirty nos coloca diante de um problema: como encarar os maus tratos aos árabes nas abomináveis cenas de torturas pelas mãos dos americanos nos pelo menos primeiros trinta minutos de filme? Um sentimento nauseante é inevitável, a questão é se realmente ético e válido experienciarmos as agressões brutais e sub-humanas do exército norte-americano sobre os seus inimigos do oriente médio como um modo de consciência e reflexão crítica no espectador que o filme de Bigelow naturalmente vai levantando (ele vai se impondo de modo bastante sombrio e nada triunfal), ou se, por outro lado,nada justifica o “realismo” das sequências de torpeza com os prisioneiros muçulmanos, ainda mais tendo em conta a catarse que pode provocar em muito ocidental. A guerra em Zero Dark Thirty é sobretudo étnica, há sempre um curto toda vez que americanos e árabes dividem o mesmo plano, com uma cultura invadindo o espaço da outra cujo terra lhe é sempre desconhecida. Se fosse como há uns bons cinqüenta anos Bigelow poderia ter imaginado o conflito do Iraque em forma de parábola como uma sci-fic da época, com uma civilização em combate com a outra num planeta longínquo. Um objeto ideologicamente discutível e cinematograficamente fascinante, Zero Dark Thirty vai construindo também um clima interessante que por vezes sugere um Zodíaco num contexto diferente , com a caçada/investigação a Bin laden como uma busca por algo que no fundo poderia não existir, filmado com grandes tomadas cuja estética decorrente se combina com excelência a uma atmosfera de horror que lembra Apocalypse Now e até Lições na Escuridão (ainda o melhor filme a se focar no Oriente Médio durante as intervenções dos americanos), e num olhar sustentado pela ótima presença de Jessica Chastain, cujo papel se consolida como um trunfos desde o momento em que Bigelow opta por segui-la de perto, como representante do nosso ponto de vista e o da própria diretora (talvez seja o alter-ego dela no filme). Mas por fim Zero Dark Thirty se confirma como no que as sinopses nos revelam, uma contribuição de Hollywood para nos convencer de vez que Bin Laden foi capturado e morte pelos americanos. Porém deve-se enxergar o quanto Bigelow é notável em lidar com as malezas de um conflito transformado em uma guerra de dados e discos rígidos de computadores, num trabalho que me pareceu mais envolvente que The Hurt Locker (ainda que esse permaneça superior).

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