Uma das maneiras apropriadas para se falar de David Lynch é compará-lo com grandes e veros cineastas. Eraserhead como primeiro obra (ignorando seus curtas anteriores) sempre me pareceu uma extensão de O Cão Andaluz (ainda que só a cena do corte no olho valha mais que Eraserhead inteiro), no que ele tem de experimental, surrealista, esquisito. Até ai tudo bem, no entanto faltou a Lynch dar o mesmo passo que Buñuel e fazer logo em seguida A Idade de Ouro e Las Hurdes, filmes em que cada um a seu modo, e respectivamente com humor e horror, tratam do sentido trágico da existência, levando o diretor a ser expulso primeiro da França, e depois da Espanha natal, permanecendo quinze anos sem filmar. O que fez David Lynch? Integrou-se como o “esquisito” dentro do “sistema”, preferiu virar cult, ao invés de maldito (coisa que, ousado e transgressor como sempre se pretendeu, nunca chegou perto de se tornar), resultando em filmes que, mesmo agradáveis e com lampejos de excelência, não fizeram dele um mestre como Buñuel. Caso de filmes que se não existissem não fariam falta alguma. Livro a cara do genial A Estrada Perdida, que pode ser visto como uma releitura de Filme Demência (parece que o próprio Reichenbach chegou a escrever que acreditava que Lynch conhecia o seu filme), embora toda a crítica tenha se levado pela influência da outra alegoria da morte/demônio vindo a terra para levar um de seus filhos que é O Sétimo Selo, inclusive é bastante enriquecedor e digno de nota rever o filme de Lynch sob a perspectiva dessas duas referências cinematográficas (façam ao menos uma sessão dupla com os road movies que são A Estrada Perdida e Filme Demência). Ok, História Real também é foda, com as esquisites de Lynch inseridas num plano mais concreto e verdadeiro quase fordiano, sem apelar aos abstracionismos ou afetações que lhe é particular, enquanto que Cidade dos Sonhos vale quando muito por hedonismo estetico que possa proporcionar, e Império dos Sonhos seja o filme mais errado e equivocado da história do cinema (o tipo esquizóide que poderia dar num A Idade da Terra caso Lynch fosse Glauber Rocha).

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Uma resposta para “

  1. E “Veludo Azul”?, gosto muito desse filme, e não acho que seja nem um pouco mainstream. Mas o meu preferido também é “A estrada perdida”.

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