30 anos sem Luis Buñuel

l’âged’or
“Inclui L’age d’or está manhã, com efeito, exatamente para que se colocasse esta questão, já que se tratava de exemplos de filmes cujos diretores, ao fazê-los, acho eu, os consideravam como filmes políticos. E, justamente, parece-me que L’age d’or não seria hoje classificado pelos críticos de cinema como filme político, ao passo que é provavelmente o único filme que criou um pouco de escândalo, que ainda hoje possui, devo dizê-lo, uma grande força, ou seja, sente-se que há algo que muda, que pode mudar, e que isso perturba.

(…)

“L’age d’or me parece interessante porque é uma mudança… Quero dizer, é um filme que fala das formas. Penso que o que há de mais difícil de mudar não é o conteúdo, mas a forma. Enfim… para tomar a oposição clássica ou para entender-se sobre as palavras, a forma é a coisa mais difícil de mudar: mudar um homem, mudar a forma, isso leva milênios. Em certos momentos, o que há de interessante, parece-me, é que L’age d’or pode ser classificado como filme político, pois se dirige efetivamente a mudanças de detalhe, mudanças de formas que se vê que são as mais poderosas, que são simplesmente as relações sociais ou a boa conduta, o modo de comportar-se; vê-se, com efeito, que os diplomas ou a forma de se vestir são coisas extremamente poderosas, e que, se a gente se veste mal, não será recebido em certos lugares: a forma, a maneira de receber um chefe de Estado num aeroporto ou o modo como um bebê pode ser batizado, ou a forma de se casar é que é ainda, a meu ver, muito poderosa; as pessoas se atêm ininteiramente a um certo numero de formas. E as verdadeiras mudanças ocorrem quando essas formas mudam, e as verdadeiras não-mudanças quando há palavras que mudam, quando a gente se diz socialista em vez de capitalista. O que mudou realmente? Eis o que é interessante.

(…)

““É ainda um filme, penso eu, que projetado numa ‘boa sociedade’ – o que se chama de boa sociedade – faria um autêntico escândalo; é um filme mal vestido… O personagem de Gastón Modot tem uma força enorme; e além do mais, é um filme em que o amor está relacionado, ao contrário do que ocorre nos outros filmes. Quando se fazem filmes políticos, o amor não entra em linha de conta; aqui, é um filme que apresenta o amor – o que as pessoas costumam chamar de amor – como elemento essencial. Então, efetivamente, você ainda pode ir a uma recepção na casa do Primeiro-Ministro e rolar no chão com a empregada, bem, acho que conseguiria fazer com que o pusessem no olho da rua. Isto também faz parte da revolução. Não quero dizer que seja assim que se faz a revolução. Mas… quero dizer, as pequenas mudanças são importantes.

(…)

“Pelo que cada um deles fez depois, penso que… sei lá, estavam mais ou menos no mesmo nível, e é mais do que se acredita ser um filme de Salvador Dalí; e o que há nele de mais fraco, que é o ataque da religião de maneira um pouco infantil ou coisas assim… muito mais que mostrar curas ou… que fazem rir justamente enquanto outras coisas na época davam antes medo e até… Lembro-me de tê-lo visto há quatro ou cinco anos no Festival de Nova York, onde nunca se havia projetado L’âge d’or, e havia um certo silêncio na sala; e, por mais enfastiados que estivessem os nova-iorquinos… Penso que havia um certo poder de transgr… é um filme que transgredia certas coisas… bom, eram coisas passadas, era uma moda de sociedade passada que se transgredia, mas as pessoas sentiam inconscientemente que, com efeito, sua própria vida estava cheia de proibições que elas próprias não ousavam transgredir, e que tinham ali uma imagem de transgressão. É neste sentido, creio eu, que se pode classificá-lo de filme político. Seria interessante saber como isto se fez exatamente. Apresentei-lhes meu ponto de vista subjetivo. Acho que é o filme – se foi Buñuel quem o fez -, que é seu filme mais violento. Os outros foram muito menos violentos, são outra coisa.”

Jean-Luc Godard, Introdução a uma Verdadeira História do Cinema

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