American Sniper (Clint Eastwood, 2014)

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American Sniper, Clint Eastwood, 2014 °°°°

Não sei se alguém já levantou a comparação, mas os comentários sobre o PM que assassinou o garotinho de 10 anos me fizeram pensar na polêmica sequência em que a criança é alvejada e morta em American Sniper e mais duas ou três coisas sobre o filme que só fui coincidentemente ver outro dia, e também sobre a nossa violência urbana. Ok, em Sniper eles estão em guerra, mas quem garante que há muito não transcorre por aqui uma guerra velada nas ruas, da força policial contra os mais pobres, com muitos destes sendo cada vez mais empurrados para a periferia ou massacrados de vez? A questão, não esquecendo o quanto lamentável e injustificável foi o episódio ocorrido no Brasil nessa semana, ilumina um filme tão mal compreendido quanto o do Clint. Lá, na ficção hollywoodiana, como aqui na realidade das ruas brasileiras, o extermínio é odioso, mas o filme definitivamente não faz uma apologia ou defesa do conflito nem coloca os muçulmanos como animais ou merecedores da morte, nem mesmo na cena supracitada. Se há um absurdo é o absurdo da guerra injusta que lá e a aqui os donos do poder nem sempre fazem o suficiente para deter, mas como tampouco o filme apresenta esse viés num discurso dentre o esperado pelo espectador cada um enxerga nele o que quer, o que inclui odiá-lo como um produto americanista ou belicista que ele não se propõe a ser. Há também o protagonista meio máquina de guerra, quase desumanizado, não uma caricatura como as que identificamos facilmente nos filmes voluntariamente mais torpes, mas vivendo em um mundo próximo das ações e batalhas de um game e mais distante da família do que gostaria (o que remete um pouco também a Matt Damon e sua frustração pela impossibilidade de aproximação afetiva em outro negligenciado trabalho do diretor, Hereafter – o que é um do temas principais de toda carreira do Clint). Caprichasse mais na dramaturgia e Sniper seria obra-prima, e não apenas um grande filme, mas eis um artista que costumeiramente se recusa a ser óbvio.

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