Debi e Loide 2 (Bobby & Peter Farrelly, 2014)

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Dumb and Dumber To, Bobby & Peter Farrelly, 2014 ***

Preparando um comentário curto para a minha lista de melhores de 2014 este tomou um tamanho maior do que esperava e o guardei para um post a parte. O cinema dos irmãos diretores precisa de grandes atores (cuja falta prejudicava os irregulares últimos trabalhos), esse retorno as suas origens não apenas recupera uma das grandes duplas cômicas da história como também um bocado da mescla de estupidez com sensibilidade que vinha fazendo falta nessa fase recente, marcada pelas dúvidas se os realizadores viviam em crise ou em declínio. Ainda que as piadas tolas existam em alguma quantidade conta com outras antológicas, como o coma fingido do personagem de Carrey (lembra um dos filmes de Laurel e Hardy em que o primeiro apenas para obedecer ordens permanece vinte anos numa sentinela mesmo a Primeira Guerra há muito ter acabado) ou os dois numa longa volta retornando para bater no endereço do remetente ao invés de se dirigirem ao destinatário de uma carta. Menos inspirado que o primeiro, mas bom o suficiente para nos despertar o desejo de que os personagens virassem franquia regular, e não somente deixar a expectativa de um terceiro daqui vinte anos.

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Garota Exemplar (David Fincher, 2014)

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Gone Girl, David Fincher, 2014 ***

Um Supercine de luxo. Thriller absorvente, o problema nem é a inverossimilhança, que um Hitchcock defendia veementemente ainda mais num gênero como o suspense, mas os absurdos e excessos rocambolescos que só o comprometem e o afundam. Bem filmado, mas um tanto descartável, ainda que envolvente, da mesma forma quando nos contam uma anedota, no caso uma anedota ruim, mas que nos prende a atenção enquanto a acompanhamos porque quem a revela sabe contá-la. Preferia ter visto um Millenium 2, até porque a galeria de personagens femininas de Fincher é bem mais interessante que se supõe ─ até Millenium, pelo menos, porque a de Gone Girl nem é uma personagem, mas várias numa só, o que por mais que o teatro de aparências esteja em jogo e em discussão, ocorre porque o material assim o deseja em sua vontade de manipulação, não pela coerência interna e plausível que seria o mínimo a se esperar dentro das metamorfoses que passa a protagonista. Há algo de quase notável na primeira parte (incluindo na personagem feminina), quando alterna os pontos de vista de marido e esposa, cada um narrando sob o próprio ponto de vista o processo de transformação do matrimônio até a queda e sumiço da mulher. Depois um tanto cínico, porque passa de mulheres que sofrem nas mãos de maridos desinteressados e egoístas para mulheres psicopatas e aterrorizantes que destroem com homens coitadinhos. Pode ser divertido, mas mal se presta a revisões.

O Lobo de Wall Street (Martin Scorsese, 2013)

wolf-wall-streetThe Wolf of Wall Street, Martin Scorsese, 2013 **¹/²

Todos os filmes de Scorsese realizados nesse novo século tendem a despertar uma euforia logo que lançados, com o frenesi de suas narrativas, os exageros visuais e temáticos de sempre, e as faltas de organização, de cuidados, em suas dramaturgias, como uma droga a entorpecer os nossos sentidos, condição esta que se desvanece seis meses ou um ano depois em muitos que abraçam esses filmes logo que saídos do forno. Não a toa cada um deles costuma ser recebido por muitos como o melhor do diretor em uns dez anos, até esse posto ser ocupado por seu filme seguinte, mais por descrédito do que foi elogiado antes que por méritos de cada filme novo. The Wolf of Wall Street resulta, depois de muitos esforços, na caricatura definitiva do cinema que o diretor vem praticando nos últimos 25 anos. Deve-se ser justo em dizer que as situações e personagens desse novo são bem pouco matizadas. O que são as mulheres aqui, meros pretextos para as cenas de sexo gratuitas e mais parecendo manequins de moda, ou mesmo os demais coadjuvantes, apenas bonecos de cera a servirem de escada para o overacting de Di Caprio, que ocupa o tempo todo da ação: não há respiro, brechas, o conjunto não se abre em outras direções. Um universo que não se expande para além de seu protagonista e da fanfarronice estética do realizador.

Hércules e a Rainha da Lídia (Pietro Francisci, 1959)

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Ercole e la regina di Lidia, Pietro Francisci, 1959 ***¹/²

Uma pena o peplum não entrar em moda e ser alvo de maiores atenções entre os cinéfilos. Os italianos tinham uma ótima tradição e pegada pro filme de gênero (horror, western, policial), e estes da safra das aventuras mitológicas dos anos 50/60 não ficam devendo muito ao que se fez depois. Eles são como que o filme B das superproduções hollywoodianas infladas, um trabalho de síntese com a aventura e o que realmente interessa reduzidos ao seu essencial, à sua depuração. Mesmo um representante um tanto menor como esse Hércules e a Rainha da Lídia (a melhor porta de entrada são os dirigidos por Vitorio Cottafavi)  vale bastante como divertimento e apreciação estética do que o gênero pode proporcionar (caso alguém precise de um referencial para ter uma ideia sobre os peplums, pensar nos dois Conan dos anos oitenta, que não seria exagero enxergar como os equivalentes na sua época ao que alguns dos italianos fizeram vinte anos antes).

Anjo Negro (Jean-Claude Brisseau, 1994)

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L’ange noir, Jean-Claude Brisseau, 1994 ****¹²

Forma com Basic Instinct de Paul Verhoeven a double bill das grandes releituras do film noir nos perversos anos 90: em comum, as femmes fatales louras, os assassinato logo no prelúdio, a investigação masculina por trás do passado da mulher como a aranha a tecer suas teias, e a consequente queda perante seus mistérios à medida que vai descobrindo os seus podres e comprometimento, e a ambiguidade sempre presente em meio ao jogo de pistas e de suspense. Como é bom se perder no universo de Brisseau a filmar anjos e demônios erguendo e destruindo seus próprios infernos e paraísos pessoais; ao fim, ser livre não é estar somente fora da prisão, mas além.

Foi Deus Quem Mandou (Larry Cohen, 1976)

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God Told Me To, Larry Cohen, 1976 ****¹/²

Thriller policial fantasioso e com toques de horror e (lá pela tantas) até blackexploitation, reimaginando Jesus Cristo renascido nas ruas imundas de Nova York da época como o mentor de uma série de mortes, e um detetive incrédulo seguindo em seu encalço. Do contraste entre o filme policial urbano e realista típico do período setentista, com o terror sobrenatural e apocalíptico, God Told Me To constrói seu fascínio, que se acentua com o sustento de uma intensidade e atmosfera desde os minutos iniciais, além de algumas das sequências mais delirantes do cinema da Nova Hollywood. Há certas referências cinéfilas: a cena de abertura com o primeiro atentado que remete a Targets, primeira obra-prima de Peter Bogdanovich, ou a garota nua correndo a noite clamando por carona na estrada, que parece tirada de outro thriller paranoico e catastrófico de vinte anos antes, Kiss me Deadly. Dos melhores filmes americanos do seu tempo.

Amanhecer Violento (John Millius, 1984)

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Red Dawl, John Millius, 1984 ****

Um dos objetos cinematográficos mais estranhos saído de Hollywood nos anos 80. Como uma daquelas parábolas de ameaça comunista em forma de invasão alienígena de décadas antes, porém despida de qualquer alegoria ao imaginar uma hipotética III Guerra Mundial em sua época. Aproximando-se por vezes de um tom de paródia, especialmente em relação aos soldados comunistas apresentados como caricaturas (alguns momentos lembram sci-fic posteriores bem sarcásticas, principalmente Starship Troopers − ainda que Red Dawn seja ideologicamente mais claro e assumido que o filme de Verhoeven), e com uma inversão intrigante na troca dos papéis (normalmente são os americanos os invasores de terras estrangeiras). Um daqueles filmes que pode provocar um desprezo numa certa idade, e fascínio anos depois. Possui também um quê de western com homens a cavalos e com armas na mão dispostos a morrer para defender seu espaço e sua própria tentativa de paz. E com uma pegada fulleriana como talvez nenhum outro filme realizado desde então.