Uma das coisas mais chatas em discutir cinema brasileiro contemporâneo é quando o outro lado lhe acusa de maneira quase inquisidora de não ter visto os filmes nacionais dos debates em voga.

Daí você enumera uma penca deles, dos que parou para assistir, e lhe vem na lembrança o tempo desperdiçado em vão, o pouco acréscimo que lhe trouxeram em termos de contribuição estética, na absoluta incapacidade de superarem as suas más vontades antes de conhecê-los (bons filmes possuem o atributo de resistir e vencer a desconfiança alheia).

Ou mesmo em um momento de eventual boa vontade dos olhos de quem vê ainda assim se confirmarem como a completa ou seminulidade que representam. Uma das razões pelas quais parei, ao menos momentaneamente, com os textos sobre cinema, é preciso uma resistência inquebrantável para lidar com objetos fílmicos que não lhe dizem muito, e aos quais você não pretende ficar buscando o que possa discorrer de bom a partir deles.

2014

Um balanço mais do meu ano cinéfilo em relação ao circuito de estreias nos cinemas brasileiros do que propriamente um top. Mais uma lista de autores que de filmes. Preferindo dentre os filmes que vejo as revisões incessantes e o passado sempre maior que o presente do que as atualidades que correm o risco de desaparecem sem deixarem vestígios no ano seguinte. Ou na semana seguinte. Com salas de cinema restritas aos parcos e desinteressantes lançamentos que aportam em Rio Grande e Pelotas acaba que vejo menos do que gostaria. Devo ter assistido em torno do triplo do número de títulos listados abaixo no que estreou no Brasil em 2014. Os que mais apreciei foram de cineastas cujas carreiras acompanho com atenção.


1) Era uma Vez em Nova York (James Gray)
O triunfo da dramaturgia, da encenação, da inteligência e da elegância.


2) Bem Vindo a Nova York (Abel Ferrara)
Uma questão moral e de poder muito longe de um filme moralizante. E o trabalho que Depardieu (Jacqueline Bisset também está um assombro) merecia há umas duas décadas.


3) O Gebo e a Sombra (Manoel de Oliveira)
Purgatório heróico. Filme de fantasmas.


4) Amar, Beber, Cantar (Alain Resnais)
O crepúsculo da fase tardia de Resnais e suas obsessões com a vida como um grande teatro, em que há espaço para a comédia e emoções diversas (além de gênio o cinema perdeu ano passado um dos seus grandes gozadores).


5) Jersey Boys (Clint Eastwood)
Não o melhor Clint recente (o posto ainda é de Hereafter), mas outra sempre bem-vinda refrescada em seu cinema sem perder sua assinatura e autenticidade.


6) Debi e Loide 2 (Bobby & Peter Farrelly)
Só o retorno de uma das melhores duplas cômicas do cinema, com as grandes piadas se sobrepondo bem às mais tolas.


7) Vidas ao Vento (Hayao Miyazaki)
Pequena animação de imagens encantadoras


8) Cães Errantes (Tsai Ming-liang)
Radical experiência de contemplação.


9) O Ciúme (Philippe Garrel)
Um tanto formatadinho para o público recente do cinema do diretor, cujo estilo precisa se voltar contra o que ele próprio se tornou, mas um Garrel batendo cartão é ainda superior a maioria dos outros cineastas.


10) Uma Relação Delicada (Catherine Breillat)
Beira o desagradável, mas não o ofensivo, com o corpo de Huppert perigando sucumbir à doença e a velhice.

A Hora Mais Escura (Kathryn Bigelow, 2012)

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Zero Dark Thirty, Kathryn Bigelow, 2012 ***¹/²

Já em seu começo, Zero Dark Thirty nos coloca diante de um problema: como encarar os maus tratos aos árabes nas abomináveis cenas de torturas pelas mãos dos americanos nos pelo menos primeiros trinta minutos de filme? Um sentimento nauseante é inevitável, a questão é se realmente ético e válido experienciarmos as agressões brutais e sub-humanas do exército norte-americano sobre os seus inimigos do oriente médio como um modo de consciência e reflexão crítica no espectador que o filme de Bigelow naturalmente vai levantando (ele vai se impondo de modo bastante sombrio e nada triunfal), ou se, por outro lado,nada justifica o “realismo” das sequências de torpeza com os prisioneiros muçulmanos, ainda mais tendo em conta a catarse que pode provocar em muito ocidental. A guerra em Zero Dark Thirty é sobretudo étnica, há sempre um curto toda vez que americanos e árabes dividem o mesmo plano, com uma cultura invadindo o espaço da outra cujo terra lhe é sempre desconhecida. Se fosse como há uns bons cinqüenta anos Bigelow poderia ter imaginado o conflito do Iraque em forma de parábola como uma sci-fic da época, com uma civilização em combate com a outra num planeta longínquo. Um objeto ideologicamente discutível e cinematograficamente fascinante, Zero Dark Thirty vai construindo também um clima interessante que por vezes sugere um Zodíaco num contexto diferente , com a caçada/investigação a Bin laden como uma busca por algo que no fundo poderia não existir, filmado com grandes tomadas cuja estética decorrente se combina com excelência a uma atmosfera de horror que lembra Apocalypse Now e até Lições na Escuridão (ainda o melhor filme a se focar no Oriente Médio durante as intervenções dos americanos), e num olhar sustentado pela ótima presença de Jessica Chastain, cujo papel se consolida como um trunfos desde o momento em que Bigelow opta por segui-la de perto, como representante do nosso ponto de vista e o da própria diretora (talvez seja o alter-ego dela no filme). Mas por fim Zero Dark Thirty se confirma como no que as sinopses nos revelam, uma contribuição de Hollywood para nos convencer de vez que Bin Laden foi capturado e morte pelos americanos. Porém deve-se enxergar o quanto Bigelow é notável em lidar com as malezas de um conflito transformado em uma guerra de dados e discos rígidos de computadores, num trabalho que me pareceu mais envolvente que The Hurt Locker (ainda que esse permaneça superior).

Skidoo se Faz a Dois (Otto Preminger, 1968)

Ando vendo e revendo filmes de Otto Preminger para um projeto futuro e há uma penca de excelentes filmes em sua carreira. Um diretor que consegue ser distinto até mesmo em seus maiores fracassos. Skidoo se Faz a Dois é um desses filmes que parecem melhores de escrever, do que de ver. Dá para sacar diversos conceitos, dá para ver o que Preminger queria, mas a verdade é que tudo isso são ideias que não se resolvem enquanto filme. E o próprio cineasta tinha noção de que o filme não teria como ser bem-sucedido, como ele revela em suas entrevistas para Peter Bogdanovich. Skidoo é o resultado de suas experiências com ácido lisérgico e a visão excessivamente cartunesca de Preminger sobre o movimento hippie, onde tudo é uma grande caricatura do mundo moderno em plena revolução de costumes. Mais próximo do trabalho de Preminger em sua curta participação como ator no seriado Batman (por causa dos elementos camp e do psicodelismo) do que de qualquer outra obra assinada pelo cineasta, o próprio filme por vezes lembra mais uma estrutura de seqüência de sketkes de programa de humor de TV (alguns mais apressados poderiam associá-lo ao tipo de comédia besteirol que vinte anos depois se popularizaria no cinema e na televisão), em torno de uma galeria de tipos bizarros com um cast formado por comediantes fracassados ou em franca decadência (incluindo Groucho Marx, em seu último papel no cinema, interpretando um mafioso chamado Deus). É um divertimento satírico e cheio de gozações que vale mais pelo experimento do que pelo resultado propriamente dito, um filme com momentos inspirados, mas cuja proposta muito cedo é levada rumo a um processo de auto-esgotamento. Não é a toa que seja um filme adorado apenas pelos autoristas, que se perderão com certo deleite no universo premingeriano, enquanto que todos os demais certamente nem ao menos fazem questão de compreender esse objeto fílmico um tanto quanto bizarro.

Novo filme de Abel Ferrara previsto para estrear no Brasil

Uma agradável surpresa nas atualizações do site Filme B: o mais recente filme de Abel Ferrara entrou no calendário de estréias nacional com previsão para setembro, pelo grupo Paris Filmes, mas ainda sem data definida. Pode até ser que o filme não estréie mês que vem, dado a inconstância do calendário de estréias de nosso circuito, mas só de ver o filme de Ferara ali já é um alento, visto que até onde eu sei dos últimos cinco longas que ele dirigiu desde Blackout (1997), apenas Maria entrou em cartaz nas telas brasileiras. O filme novo chama-se Napoli Napoli Napoli, produção italiana do ano passado, um drama dividido em três episódios diferentes, cuja inspiração partiu de uma entrevista de Ferrara a um grupo de condenadas da penitenciaria estadual feminina na Itália (os dois longas anteriores do diretor, Maria e Go Go Tales, já eram co-produções italianas). É o seu primeiro filme em muito tempo sem estrelas (todos os atores também são italianos), e os episódios foram escritos por membros da associação juvenil anti-crime Figli del Bronx, numa linha entre a ficção e o documentário.