A Dama de Preto

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O Lobo de Wall Street (Martin Scorsese, 2013)

wolf-wall-streetThe Wolf of Wall Street, Martin Scorsese, 2013 **¹/²

Todos os filmes de Scorsese realizados nesse novo século tendem a despertar uma euforia logo que lançados, com o frenesi de suas narrativas, os exageros visuais e temáticos de sempre, e as faltas de organização, de cuidados, em suas dramaturgias, como uma droga a entorpecer os nossos sentidos, condição esta que se desvanece seis meses ou um ano depois em muitos que abraçam esses filmes logo que saídos do forno. Não a toa cada um deles costuma ser recebido por muitos como o melhor do diretor em uns dez anos, até esse posto ser ocupado por seu filme seguinte, mais por descrédito do que foi elogiado antes que por méritos de cada filme novo. The Wolf of Wall Street resulta, depois de muitos esforços, na caricatura definitiva do cinema que o diretor vem praticando nos últimos 25 anos. Deve-se ser justo em dizer que as situações e personagens desse novo são bem pouco matizadas. O que são as mulheres aqui, meros pretextos para as cenas de sexo gratuitas e mais parecendo manequins de moda, ou mesmo os demais coadjuvantes, apenas bonecos de cera a servirem de escada para o overacting de Di Caprio, que ocupa o tempo todo da ação: não há respiro, brechas, o conjunto não se abre em outras direções. Um universo que não se expande para além de seu protagonista e da fanfarronice estética do realizador.

Melhores filmes de 2013

Considerando apenas os filmes que entraram em cartaz nos cinemas brasileiros em 2013, como uma forma de avaliar e pensar o circuito brasileiro de estreias, no que ele teve de bom, e muito do que, a meu ver, passou de superestimado e elogiado, devidamente excluído da relação abaixo. Um recorte de acordo com meu gosto pessoal e visão de cinema. Faço essas listas desde 2007, e percebo que é a primeira vez que seleciono dez filmes sem que algum sequer seja americano (que falta faz um Clint Eastwood no calendário de estreias brasileiras). Nos anos anteriores, entravam de três a quatro filmes hollywoodianos, em média. Só para que conste, se fosse citar americanos dessa vez, seriam Alvo Duplo (Walter Hill), Depois da Terra (M. Night Shyamalan) e Django Livre (Quentin Tarantino), filmes dos quais gosto, mas com ressalvas, e menos dos que os dez escolhidos. Sem mais, vamos a estes.

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1) Crazy Horse (Frederick Wiseman)

Muitos de seus melhores momentos Crazy Horse se dão como peças de um musical (o melhor do gênero, em anos), em um fascínio absoluto pela alteridade, nas metamorfoses das garotas que se travestem e se transformam pelo troca constante de figurinos, maquiagens e perucas (e dos corpos em paralelos a manequins e estátuas) − Crazy Horse é também um filme sobre performances −, e pela alteridade de luz e cores, que resultam em efeitos siderantes, muito longe de uma cafonice geralmente associada aos Baz Luhrmann da vida, e próxima da mais física e concreta matéria. O movimento sensual e ritmado dos corpos, e a visão das epidermes banhada em luz, reproduzidos pela coreografia e os esforços das dançarinas através de diversas repetições ou números novos − elas mesmas, as dançarinas, corpos de luz semitragados na escuridão, nesse filme que por vezes se apresenta como um teatro de sombras −, até o ponto do abstrato e da plenitude como cinema e sensação. Crazy Horse é peça de grande resistência musical e cinematográfica, um filme sobre trabalho e espetáculo, beleza e erotismo.

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2) O estranho caso de Angélica (Manoel de Oliveira)

A outra grande experiência estética junto com os filmes de Wiseman e Resnais a chegar aos cinemas brasileiros em 2013. Por ter visto há três anos, embora sobrevivendo firme na memória, não teria muito o que comentar além de ser esse romance necrófilo e, como ocorre com frequência no cinema de Oliveira, atemporal, trabalhado para tornar palpável um passado que não mais existe (alguns críticos invocam Meliés a respeito das suas cenas com efeitos especiais) e fazendo um filme suspenso entre as nossas noções de clássico e moderno. Um casal o qual nunca um ao outro se conheceriam de fato, pois o que o fotógrafo busca ─ só o que poderia lhe restar, uma vez que já não pode se apossar da personagem por ela já não ser desse mundo ─ é apreender a sua imagem. Forma um belo díptico com Singularidades de uma Rapariga Loura pela obsessão em um e outro de Ricardo Trêpa no distante fascínio pelas mulheres ao se apaixonar por uma imagem: naquele, a moça emoldurada no quadro da janela em frente; nesse, o cadáver gracioso a ser fotografado, o fantasma a lhe seduzir.

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3) Vocês ainda não viram nada! (Alain Resnais)

Em filmes como esse seu mais recente ou outros anteriores de Resnais, ao se voltarem para a herança do teatro, em vez de deixar de sê-lo se tornam, por encontrarem neles os meios que resultam em sua mais pura expressão, ainda mais cinematográficos, com a câmera sempre na altura e lugares apropriados. E um tempo propicio e necessário para o desenvolvimento da ação, as pausas, a respiração, os cuidados com o décor, a entonação do elenco, o movimento ou a estaticidade deles, e todos os demais elementos em cena (incluindo o elenco) perfeitamente dispostos. Um jogo de troca entre os atores que estão numa platéia e os que estão num vídeo projetado para àqueles, como uma separação entre passado e presente, até o filme de Resnais se converter em uma das melhores variações para o cinema do mito de Orfeu e Eurídice, com um grande sentido de espetáculo e capacidade de fantasia.

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4) A filha de ninguém (Hong Sang-soo)

A mulher sempre foi elemento importante na filmografia do diretor coreano, mas em grande parte das vezes podendo parecer enganosamente representadas como simples companhia e objeto amado dos protagonistas masculinos. A proximidade desse A Filha de Ninguém com A Visitante Francesa sugere que Hong faz com que cada vez suas musas ocupem um espaço como núcleos centrais em sua obra, numa bem-vinda perspectiva e variação desse universo sempre em expansão que é o seu cinema. Grande plano final.

CINEMA: BELLOCCHIO, IL MIO SGUARDO LAICO SU FINE VITA
5) A bela que dorme (Marco Bellocchio)

De uma eloquência cinematográfica contida e as vezes operística. Dos filmes dessa lista é o que mais pede para ser visto mais de uma vez, pela variedade de personagens e tramas que Bellocchio vai costurando devagar no seu filme-painel, evitando as situações sensacionalistas ou de impacto fácil, para muito além de uma obra sobre eutanásia (e que pode frustrar quem espera um foco demasiado no tema)

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6) O som ao redor (Kleber Mendonça Filho)

Agora que o hype diminuiu fica mais claro como muitos dos elogios saíram de controle, desse que serviu como filme apoteose entre os entusiastas do cinema brasileiro contemporâneo, e não teria muito a acrescentar ao texto que escrevi no Multiplot ano passado, mas é um filme que permanece forte por ir de encontro, não fugir, a uma dramaturgia, e sobretudo por saber materializar cinematograficamente muitas ideias ao invés de simplesmente se valer delas como se as boas intenções do argumento é que contassem.

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7) A visitante francesa (Hong Sang-soo)

Poderíamos nos queixar e esperar que Hong mude radicalmente o seu estilo, e não se repita mais filme a filme, mas é só ver algum de seus trabalhos que ele nos desarma completamente. In Another Country é outro que vive da eterna tensão entre repetição e renovação contínua que há em obra a obra de Hong, e que se sustentam sempre por serem cheios de vida e dotados de grande beleza. Assim como na existência nossa do dia-a-dia, é tudo sempre igual, mas nunca o mesmo filme.

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8) Um Estranho no Lago (Alain Guiraudie)

Um paraíso utópico em que à medida que habitua o olhar do público às sequências explícitas ao ponto da aceitação plena reencena uma nova versão da queda pelas mãos de um de seus anjos caídos, no espaço à beira do lago e do bosque como uma floresta encantada, e uma apreensão quase mágica da natureza. Bastante eficiente como um filme de suspense.

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9) Bastardos (Claire Denis)

Possui momentos verdadeiramente incríveis, porém parece já o termos visto antes diversas vezes, e até melhor, dirigido pela própria Denis. Um pouco dividido entre um estilo consolidado e a reiteração um tanto gasta do seu cinema − a sensação de déjà vu em relação a sua obra pregressa é muito forte, o que diminui o impacto do filme. Entorpece como a nos provocar um grande prazer sensorial e uma reflexão inquietante de mundo, e embora se constitua um belo filme, o cinema pode e deve ser bem mais que isto.

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10) Camille Claudel, 1915 (Bruno Dummont)

Um material que serve melhor às intenções do cinema de Dummont do que outros de seus filmes mais recentes, Camille Claudel é muito mais narrativo sobretudo pela referência forte em torno da personagem principal, e o grande poder visual representado pelas imagens de terror nos rostos dos doentes do manicômio. Há anos Binoche não aparece tão bem num filme sem que pareça representar a si próprio. E quando poderia cansar pelas visões de loucura e confinamento sofre uma bela quebrada com a entrada em cena do irmão, que impede que o filme se desequilibre e só reforça o que ele tem de cruel.

Hércules e a Rainha da Lídia (Pietro Francisci, 1959)

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Ercole e la regina di Lidia, Pietro Francisci, 1959 ***¹/²

Uma pena o peplum não entrar em moda e ser alvo de maiores atenções entre os cinéfilos. Os italianos tinham uma ótima tradição e pegada pro filme de gênero (horror, western, policial), e estes da safra das aventuras mitológicas dos anos 50/60 não ficam devendo muito ao que se fez depois. Eles são como que o filme B das superproduções hollywoodianas infladas, um trabalho de síntese com a aventura e o que realmente interessa reduzidos ao seu essencial, à sua depuração. Mesmo um representante um tanto menor como esse Hércules e a Rainha da Lídia (a melhor porta de entrada são os dirigidos por Vitorio Cottafavi)  vale bastante como divertimento e apreciação estética do que o gênero pode proporcionar (caso alguém precise de um referencial para ter uma ideia sobre os peplums, pensar nos dois Conan dos anos oitenta, que não seria exagero enxergar como os equivalentes na sua época ao que alguns dos italianos fizeram vinte anos antes).

Anjo Negro (Jean-Claude Brisseau, 1994)

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L’ange noir, Jean-Claude Brisseau, 1994 ****¹²

Forma com Basic Instinct de Paul Verhoeven a double bill das grandes releituras do film noir nos perversos anos 90: em comum, as femmes fatales louras, os assassinato logo no prelúdio, a investigação masculina por trás do passado da mulher como a aranha a tecer suas teias, e a consequente queda perante seus mistérios à medida que vai descobrindo os seus podres e comprometimento, e a ambiguidade sempre presente em meio ao jogo de pistas e de suspense. Como é bom se perder no universo de Brisseau a filmar anjos e demônios erguendo e destruindo seus próprios infernos e paraísos pessoais; ao fim, ser livre não é estar somente fora da prisão, mas além.

Partner (Bernardo Bertolucci, 1968)

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Partner, Bernardo Bertolucci, 1968 ****

A maioria dos filmes de Bernardo Bertolucci ficaram datados com o tempo, até a hora em que ele próprio passou a fazer filmes natimortos. A grande fase de sua carreira permanece a da década de sessenta, quando talvez não por acaso ele se aproximava de clássicos literários insuspeitos e de caráter universal para transpô-los a sua época e falar de seu tempo. Foi assim com A Cartuxa de Parma de Stendhal que virou Antes da Revolução e o conto de Borges Tema do Traidor e do Herói que utilizou de base para A Estratégia da Aranha. Entre os dois, se serviu de uma das mais densas novelas psicológicas de Dostoievski, O Duplo, para realizar este Partner, um dos limites finais do cinema de Bertolucci em matéria de ousadia formal. Político e godardiano (faria uma bela sessão dupla com La Chinoise), é um perfeito espelho de seu tempo, do dilaceramento, incertezas e até esquizofrenias da juventude engajada de 68, muito longe de qualquer idealização ingênua (os melhores filmes a fazer uma crítica lúcida e positiva da esquerda foram concebidos por diretores de esquerda).