Garota Exemplar (David Fincher, 2014)

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Gone Girl, David Fincher, 2014 ***

Um Supercine de luxo. Thriller absorvente, o problema nem é a inverossimilhança, que um Hitchcock defendia veementemente ainda mais num gênero como o suspense, mas os absurdos e excessos rocambolescos que só o comprometem e o afundam. Bem filmado, mas um tanto descartável, ainda que envolvente, da mesma forma quando nos contam uma anedota, no caso uma anedota ruim, mas que nos prende a atenção enquanto a acompanhamos porque quem a revela sabe contá-la. Preferia ter visto um Millenium 2, até porque a galeria de personagens femininas de Fincher é bem mais interessante que se supõe ─ até Millenium, pelo menos, porque a de Gone Girl nem é uma personagem, mas várias numa só, o que por mais que o teatro de aparências esteja em jogo e em discussão, ocorre porque o material assim o deseja em sua vontade de manipulação, não pela coerência interna e plausível que seria o mínimo a se esperar dentro das metamorfoses que passa a protagonista. Há algo de quase notável na primeira parte (incluindo na personagem feminina), quando alterna os pontos de vista de marido e esposa, cada um narrando sob o próprio ponto de vista o processo de transformação do matrimônio até a queda e sumiço da mulher. Depois um tanto cínico, porque passa de mulheres que sofrem nas mãos de maridos desinteressados e egoístas para mulheres psicopatas e aterrorizantes que destroem com homens coitadinhos. Pode ser divertido, mas mal se presta a revisões.

Melhores de 2012

Critério: filmes que estrearam no Brasil em 2012, utilizando como fonte o calendário oficial do Filme B, mais a inclusão de O Gerente, cujo lançamento foi direto no Canal Brasil, não podendo deixá-lo de fora. Caminho para o nada entrou na lista do ano passado, mas como estreou em outras praças em 2012, constante na relação do Filme B desse ano, repito a menção também (o filme merece). Alguns empates serviram para que a lista terminasse com doze, em vez de dez filmes.

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01) Holy Motors (Leos Carax)

Muito já se falou de Holy Motors, difícil a esta altura não reconhecê-lo como o acontecimento mais importante do ano, melhor filme de 2012. Mesmo com os perigos de todo consenso, marcou em definitivo a reabilitação de um cineasta maldito (é apenas o seu segundo longa em vinte anos) como um autor festejado, ainda que algumas gerações mais velhas possam questionar seus méritos como diretor, devido a uma incompreensão crítica já antiga. De minha parte, lembro que ao assisti-lo na primeira vez o senti como uma revelação equivalente ao de certas fantasias delirantes que me foram (ou ainda são) caras em outros momentos de minha cinefilia, como The Holy Mountain e Uncle Boonmee, uma jornada com aquela disposição em blocos como se fossem vários filme num só, e os personagens em mutações e ambientes diversos, trocando-se, evidentemente, o contexto: ao invés do terceiro mundo da america latina do jodo, e das vastas florestas do filme do apitchapong, a Paris de Carax (inclusive o cartaz do seu filme lembra muito um dos cartazes do Boonmee). Sem o exotismo que se pode acusar nesses dois diretores, e mais de acordo com uma longa tradição feérica e terrorista tipicamente francesas, e ao mesmo tempo de uma melancolia cortante e de uma força cósmica que guarda o canto dos mistérios inexoráveis do mundo.

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02) Caminho para o nada (Monte Hellman)

Saudado como o retorno do mítico diretor, passado algum tempo a impressão que o filme de Hellman nos deixa é que ainda ficou muito a se dizer sobre ele, como se as várias tentativas críticas não tivessem sido suficientes para nem de longe esgotar suas exegeses. Um filme que vai sempre exigir um retorno constante e necessário a ele (como praticamente o são todos de Hellman), para muito além de se saciar a curiosidade pela circunstância rara de um lançamento do diretor mais de vinte anos depois de se longa anterior. Thriller metalinguístico, jogo lúdico com o espectador, a idéia de filme policial (vagabundo ou sofisticado) muito mais que propriamente a de um filme de gênero em si, além das mulheres nos filmes de Monte Hellman, cuja natureza e presença são sempre rodeadas pelo âmbito de um mistério: Road to Nowhere, ainda assim, é bem maior que tudo isso, e toda sua dimensão ainda vai precisar de muito mais tempo para ser compreendida. Como todo grande filme de Hellman.

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03) O Gerente (Paulo Cesar Saraceni)

Os Lumières diziam que o cinema era uma invenção sem futuro. Uma frase que poderia ser interpretada de diversas maneiras. Diante de O Gerente não é difícil constatar que o filme de Paulo Cesar Saraceni é o cinema. E o próprio Saraceni ao fazê-lo bem como seus admiradores parecem reconhecer que não há lugar para um trabalho como este dentro de uma arte ainda tão nova como é o cinema (o que foi confirmado pelo próprio circuito brasileiro de estreias, que o alijou das salas comerciais e o jogou direto para a TV). Com todo seu anacronismo, O Gerente é o futuro do cinema a que não tivemos direito, confirmando a profecia dos Lumières. Com um anarquismo bem-humorado e arrojo raros mesmo entre outras tentativas vanguardistas recentes do cinema brasileiro, O Gerente traz um genial Ney Latorraca como um tarado simpático apaixonado por beijar mãos femininas, até que este hábito já não lhe basta, e ele recorre a uma compulsão canibal, porém sempre amorosa. Poético, musical e cheio de liberdade, mas sem efeitos fáceis, com toda a sua desconstrução narrativa O Gerente é de uma melancolia bastante sedutora e de uma vitalidade imensa. O testamento de Saraceni.

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04) Um método perigoso/ Cosmópolis (David Cronenberg)

Um Método Perigoso retrata uma época (começo do século XX) que parece fim de civilização, e começo de outra. Era um tempo de vanguardas artísticas, e aprofundamento de estudos em torno de conceitos como a psicanálise, o socialismo, teoria da relatividade etc., mas que caminhava para a barbárie das duas grandes guerras mundiais, e os desenvolvimentos científicos e tecnológicos que viriam depois delas, já Cosmópolis trata desse novo tempo (cem anos depois) que passa rápido demais, escoando por entre nossos dedos, numa existência diluída pelo capitalismo tecnológico. Em ambos os filmes, profundos avanços que acontecem sem que ocorra também uma evolução igual no campo das relações humanas, éticas ou sociais, o que há muito vem sendo tratado na filmografia do diretor canadense, com o homem moderno se rendendo a ferramentas que de certa forma o desumanizam (ou o anestesiam). Se grande parte da filmografia do cineasta é reconhecida como sobre corpos e suas deformações, e do homem criando uma nova forma de se relacionar com o mundo (e cada qual a seu modo inventando um universo específico bastante particular), este Um Método Perigoso seria sobretudo sobre almas que se pretende devassar (psicologicamente falando). Almas arruinadas em oposição aos corpos em putrefação de suas ficções de horror explícitos. Enquanto que em Cosmópolis, em sua queda por livros infilmáveis que resultam em filmes estranhos, Cronenberg recria o romance de Don De Lillo com uma carga simbólica bastante envolvente e identificável em suas imagens. A limusine como nave ou caixão. O personagem como um vampiro a engolir a todos a sua volta e depois se autodestruir. O sangue na própria superfície do filme (não é um filme muito limpinho não). O sexo. A política (trata-se de um filme de horror político com todo o caos social e econômico que toma a tela durante a jornada do protagonista). Um filme trabalhado na medida certa, menos para impressionar em demasia do que para perdurar quem sabe por um século inteiro como um dos mais justos retratos de nossos tempos. O recente díptico de Cronenberg pode ser considerado como as suas melhores contribuições para o cinema nos últimos quinze anos.

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05) Habemus Papam (Nanni Moretti)/ As Quatro Voltas (Michelangelo Frammartino)

O cinema italiano atual me lembra um pouco o brasileiro: alguns poucos veteranos que salvam a pátria (no caso deles, Marco Bellocchio e Nanni Moretti) e uma produção com nomes recentes que deixa muito a desejar. As Quatro Voltas não é o filme que vai salvar o cinema italiano da UTI em que se encontra, mas é uma exceção com o seu trabalho de dramaturgia em torno da vida animal e seu ciclo (com ênfase num cão e num cabrito recém-nascido), e com uma notável guinada em seu meio. Enquanto que em Habemus Papam, o papa recém-eleito entra em crise e Nanni Moretti é o psicanalista chamado para tratá-lo. Talvez não seja uma das obra-primas do diretor, poderia haver maior interatividade entre o psicanalista e o papa (sempre sentimos falta de um quando o filme se foca apenas no outro, especialmente nas vezes em que se afasta do papa), mas trata-se de mais uma bela comédia dramática e irônica de Moretti, aqu em torno de temas espinhosos como Vaticano e dos conflitos da religião com conflitos mundanos e existenciais. Seus filmes fazem bem a alma e as nossas consciências.

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06) Hahaha (Sang-soo Hong)

Como mestre na apreensão da realidade por meio de situações dramáticas, bem-humoradas ou românticas que escondem sob a sua aparente banalidade uma densa substância de vida que faz com que seus filmes adquiram uma conotação universal, o coreano Sang-soo Hong só encontra equivalente na obra de Eric Rohmer. É consenso que se trata de uma obra marcadamente dialogada, mas por causa dos seus fluxos, de diálogos, mas também de corpos e deslocamentos, é também um cinema eminentemente físico. Muitos poderiam reclamar que ele faz sempre o mesmo filme (particularmente preferia que ele, como Rohmer, por vezes se afastasse de seus ciclos e contos de cinema e de amor – que formam a sua filmografia inteira – para experimentar desafios diferentes e maiores), e à distância sua obra pode nos passar uma falsa impressão de repetição perpétua, porém o coreano é como aquelas bandas ou compositores que parecem refazer sempre o mesmo disco, mas nos aproximarmos de suas obras equivale a sempre uma revelação diferente. Hahaha é ponto alto em sua filmografia recente.

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07) J. Edgar (Clint Eastwood)

Tudo que teria a dizer sobre mais este belo filme de Clint o fiz no texto para o Multiplot.

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8) Um verão escaldante (Philippe Garrel)

Os raros filmes coloridos de Garrel, menos frequentes, mais prosaicos (ou de uma poesia dura e escondida) podem nos deixar com uma impressão errônea de cálculo, de uma câmera que se movimenta a esmo pelos cenários, e aos atores e personagens que parecem existir para justificar uma grife criada por em torno deles pelo cinema contemporâneo, mas é preciso que se faça justiça a muitos desses trabalhos, como O Vento da Noite nos já distantes anos noventa, ou este outro romance fantasmagórico que é Um Verão Escaldante.

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9) Millennium – Os homens que não amavam as mulheres (David Fincher)

Poderia pairar mesmo entre os admiradores de Fincher uma desconfiança de que, a julgar pelos trabalhos mais bem-comportados que vinha fazendo nos últimos tempos, seu cinema encontrava-se para o bem ou para o mal cada vez mais domesticado. Millennium atesta o que a suspeita tem de verdade e o que ela possui de falso: o filme recupera uma predileção antiga do cineasta por uma temática mais violenta e sombria (que parecia adormecida em sua obra mais recente), e ao mesmo tempo confirma o amadurecimento que vinha sendo celebrado em torno da figura do realizador. As marcas de praticamente todos os seus trabalhos anteriores podem ser reconhecidas nesse mais recente, desde os mais que discutíveis créditos de abertura (que com seu estilo clipeiro nos faz temer pelo pior, o que felizmente não acontece), até uma discreta e tocante cena final que prossegue com os normalmente reprimidos desfechos românticos na filmografia do diretor. Para muitos ainda deve ser apenas um moderninho de plantão, mas aproveito a ocasião para indicar o texto do crítico Luiz Carlos Oliveira Jr., provavelmente o que melhor deu conta das qualidades e também limitações do filme.

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10) Sombras da noite (Tim Burton)

Todo filme de Burton parece despertar as mesmas reações de parte a parte: uns vão sempre considerar como mais um passo no fundo do poço que seria a carreira recente do diretor, enquanto outros o saudarão como um bem-vindo retorno à forma. Essa recepção de grande parte do público e crítica nao deixa de ser semelhante a que os trabalhos dos irmãos Farellys vêm recebendo de muita gente nesses mesmos últimos dez, doze anos, por parte de um público que cresceu assistindo os seus filmes da década de noventa (tanto os de Burton quanto os dos Farellys) e que depois de certa idade assumiu completo desinteresse pelas obras deles. Justo quando esses autores assumiam certos riscos, encaravam desafios, concretizavam algumas variações que enriqueciam suas filmografias (nem sempre com acerto, deve-se dizer). Não a toa alguns dos últimos filmes deles são trabalhos de crise, Sombras da Noite se amparando muito no personagem genial de Johnny Depp transitando como um elemento estranho numa época que não é a sua, num choque de séculos – o do horror gótico de duzentos anos antes com o da contemporaneidade que já não se afeta mais pelo terror sobrenatural. O que, além de bem orgânico na sua mistura de gêneros, rende belos momentos como o prólogo, o McDonalds sendo confundido com um templo a Mefistófeles, ou o diálogo com Chloë Grace Moretz pouco antes da reunião com os hippies. Dos mais divertidos do ano, mesmo que longe de ser perfeito.